Moda sustentável na Amazônia cresce na contramão do consumo descartável
Texto: Alice Martins Morais. Edição: Natália Mello. Foto: Divulgação Zwanga
Publicado em 13/04/2026 12:00 e atualizado em 14/04/2026 08:57
Read also in English.Lea también en Español.
Após a cerimônia do Oscar deste ano, a moda sustentável na Amazônia ganhou um novo momento de projeção internacional com o vestido da atriz Alice Carvalho, que usou uma peça feita com fibras naturais de juta e malva produzidas na região, assinada pelos estilistas Marco Normando e Emídio Contente. O tecido usado na peça é fornecido pela Companhia Têxtil de Castanhal, que transforma juta e malva cultivadas em áreas de várzea. A produção segue o ciclo natural das chuvas e dos rios amazônicos, sem irrigação artificial, adubação química ou desmatamento. O processo inclui trabalho com comunidades ribeirinhas, oferecendo assistência técnica, fornecimento de sementes e a compra do material.
A presença no tapete vermelho ampliou a visibilidade da moda amazônica e reforçou o seu potencial de referência em inovação, cultura e sustentabilidade. Mas esse movimento não tem a ver com a premiação em Los Angeles, nos Estados Unidos. O episódio reflete um movimento maior de crescimento desse mercado, que inclui desde o uso de fibras naturais em biojoias até práticas de upcycling - ou reutilização criativa - e a valorização de peças de maior durabilidade, alternativas que se contrapõem ao consumo descartável da indústria da moda.
A sustentabilidade tem quatro pilares: ambiental, econômico, cultural e social. Por isso, mais do que o produto final, essa sustentabilidade na moda deve estar conectada às pessoas que fazem parte da cadeia produtiva. Por trás das peças, estão histórias como a da amapaense Rejane Soares, que passou quatro anos estudando moda na Colômbia e, ao retornar, decidiu criar sua própria marca valorizando suas raízes africanas e quilombolas.
Há 13 anos, a marca Zwanga estava prestes a nascer quando a designer sofreu um assalto e perdeu todo o maquinário. Ela precisou, então, se reinventar com o que sobrou: retalhos de roupas. “A sacola de retalhos foi nosso pontapé inicial. Com eles comecei a fazer brincos, colares", recorda. A solução improvisada acabou se tornando um dos princípios criativos e políticos do empreendimento, conectando-se a um movimento mais amplo de reaproveitamento e circularidade que hoje ganha força na Amazônia.
.jpg)
Foto: Divulgação Zwanga
Rejane combina tecidos novos com sobras recolhidas em ateliês parceiros, dando destino nobre a materiais que poderiam virar lixo. “O que sobra de uma coleção nossa também já aproveitamos para incorporar na seguinte. Usamos uma técnica africana chamada kawandi", explica, referindo-se à prática de fazer como se fossem colchas de retalhos, originária dos Siddi (comunidade africana na Índia).
O cuidado com o ciclo completo dos materiais dialoga com um problema estrutural da indústria da moda, apontado pela economista e professora Felicia Maia. O setor é considerado o segundo maior poluidor de água do planeta, atrás apenas do petróleo, com impactos que vão da produção ao descarte. Mesmo sem ser um grande polo de confecção, a Amazônia ocupa papel estratégico como fornecedora de matérias-primas da indústria conhecida como fast fashion, modelo de negócios baseado na produção rápida e massiva de roupas de baixo custo, conforme explica Maia.
“Sem um monitoramento efetivo dessa cadeia de suprimentos, o fast fashion pode acabar financiando a destruição da Amazônia ao comprar matéria-prima de áreas desmatadas", enfatiza.
.jpg)
Rejane Soares - Foto: Divulgação Zwanga
De acordo com a consultoria Canopy, em informação divulgada pela Mongabay, 30% da viscose - fibra natural amplamente utilizada na indústria da moda, produzida no mundo é proveniente de árvores de florestas nativas e ameaçadas de extinção, incluindo a Amazônia. Além disso, a indústria consome cerca de 215 trilhões de litros de água por ano e utiliza milhares de substâncias químicas prejudiciais. “As roupas de tecidos sintéticos também liberam microfibras plásticas que contaminam a água e as espécies de rios amazônicos", alerta também Felicia Maia. O tema, inclusive, apareceu em uma pesquisa da Universidade Federal do Pará (UFPA) que encontrou microplásticos e celulose artificial em quelônios de água doce, possivelmente vindos da lavagem de roupas nos rios, conforme noticiado pelo ((o))eco.
Consumo da moda em alguns dados
-
Todos os anos, 92 milhões de toneladas de resíduos têxteis são produzidas globalmente
-
11% dos resíduos plásticos vêm de roupas e têxteis
-
Apenas 8% das fibras têxteis são feitas de fontes recicladas (2023)
-
Em duas décadas, o consumo de roupas globalmente aumentou 400% (2020)
Fontes: Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA)/ Xuandong Chen & Hifza A. Memon
Fazer durar também pode virar moda
Na distribuição dos produtos do fast fashion mundo afora, mais gases de efeito estufa são emitidos e, com roupas que cada vez duram menos, a degradação continua se agravando após o uso das peças. De 2000 a 2015, a durabilidade das roupas caiu em 36% (na China, a queda foi de 70%). O resultado? Mais de 80% dos têxteis (roupas, sapatos, dentre outros) vazam para fora do sistema no momento do descarte. Ou são incinerados, depositados em aterros sanitários ou vazam para o meio ambiente, segundo a Fundação Ellen MacArthur, uma instituição filantrópica internacional, focada na economia circular.
É nesse cenário que iniciativas como a de Rejane se inserem como alternativas concretas. O que não é reaproveitado na Zwanga é doado para outras mulheres que produzem bonecas, acessórios e tapetes, ampliando o impacto social da marca. "Temos muito cuidado com tudo que fazemos para que não vire um resíduo, porque sabemos que impacta a Amazônia", salienta.
Além disso, a estilista promove formações em costura, maquiagem e outros ofícios para mulheres negras, quilombolas e ribeirinhas. “Também fazemos biojoias usando fibra da bananeira, que é muito forte no estado, nos conectando com o que temos aqui e fortalecendo a cadeia da moda desde o insumo até a passarela", ressalta.
Para Felicia Maia, que também é coordenadora do curso de Moda da Universidade da Amazônia (Unama), esse tipo de iniciativa mostra o potencial da sociobioeconomia para desafiar o modelo dominante. “As iniciativas de sociobioeconomia, de moda sustentável na Amazônia, tem um potencial significativo de desafiar esse modelo de fast fashion, usando, por exemplo, fibras naturais”, explica.
.jpg)
Felicia Maia - Foto: Arquivo Pessoal Felicia Maia
A lógica de sustentabilidade, no entanto, não se limita às fibras ou aos tecidos. É aí que a trajetória da designer de joias paraense Naisha Cardoso amplia esse debate. Assim como Rejane, ela também busca tensionar o modelo de consumo, mas a partir de outro lugar: o uso de metais nobres. “Uso ouro, prata, gema preciosa, recurso mineral não renovável, é diferente da sociobioeconomia. Não quero romantizar o uso desses metais nem estimular o consumo. Minha proposta é justamente usar menos metal para construir peças que vão durar para sempre", explica.
O fast fashion barateia custos com materiais sintéticos e baixa durabilidade, enquanto o slow fashion investe em peças feitas para durar. Naisha defende que, nesse sentido, a rastreabilidade e a escala são centrais: “Precisamos saber de onde vem os insumos, se não têm marcas de desmatamento ou de trabalho escravo. E mesmo que seja um modelo muito sustentável de moda, se pressionar por escalabilidade demais, além do que a natureza e as pessoas podem dar, interfere no meio, deixa de ser sustentável", argumenta.
.jpg)
Foto: Acervo Naisha Cardoso
Caminhos para colocar a rastreabilidade e durabilidade como nova tendência
Na visão de Felicia Maia, as experiências de slow fashion na Amazônia funcionam como um “nicho de vanguarda”, que pressiona a indústria e estimula mudanças no comportamento do consumidor, “mas certamente enfrenta grandes barreiras econômicas e logísticas até se tornar um padrão de mercado”, complementa.
Por isso, a pesquisadora defende dois caminhos: incentivos fiscais/financeiros para empresas de slow fashion e maior investimento em educação ambiental para que uma nova geração de consumidores tenham maior preocupação com o tema. E já há sinais de mudança: uma pesquisa divulgada em 2024 revela que 87,5% dos consumidores brasileiros preferem comprar roupas de marcas que adotam práticas sustentáveis.
Para Naisha Cardoso, que também é membro do Fashion Revolution Brasil, um movimento global que age para acelerar a transição da moda rumo à justiça social e climática, o Brasil precisa melhorar sua legislação para dar passos maiores. “Existe uma legislação muito permissiva para a entrada de metais não nobres, inclusive cancerígenos, como o cádmio. Precisamos falar sobre isso", declara.
Ela reforça a preocupação com as condições de trabalho na cadeia produtiva e aposta em alternativas como o reaproveitamento de metais de eletrônicos. “Uso o ouro que vem de um banco de metais brasileiros com rastreabilidade. A gente tem a possibilidade de retirar metal nobre dos aparelhos celulares antigos, por exemplo", complementa. Suas joias, feitas sob encomenda e com referências amazônicas, se contrapõem à lógica descartável das bijuterias. “Muitas vêm da China, há uma proporção enorme de componentes que, quando quebram, são materiais descartáveis, não tem conserto. Vão parar no lixão, no aterro sanitário", descreve.
.jpg)
Naisha Cardoso - Foto: Divulgação Naisha Cardoso
Ainda assim, o custo inicial das peças do fast fashion muitas vezes costumam ser bem mais baixos. Enquanto o slow fashion utiliza matérias-primas naturais, valoriza condições justas de trabalho e produz em menor escala, com foco na durabilidade das peças, o fast fashion reduz custos ao recorrer a materiais sintéticos, qualidade inferior e mão de obra barata. Ou seja, o fast fashion é mais barato a curto prazo, mas a médio e longo prazo o valor de peças sustentáveis é muito mais elevado, resume Felicia Maia.
.jpg)
Foto: Divulgação Naisha Cardoso
Indústria da moda no Brasil x Meio ambiente
-
Mais de 60% das marcas não divulgam inventários completos de emissões de gases de efeito estufa
-
Os 40% das marcas que divulgam os inventários já representam um conjunto que emite mais emissões de gases de efeito estufa que Portugal
-
80% das marcas não têm compromissos públicos e com prazo determinado para o desmatamento zero
-
Somente 42% das marcas divulgam seus fornecedores diretos e apenas 23% informam quem fornece parte de suas matérias-primas
Fonte: Índice de Transparência da Moda Brasil 2025. Pesquisa feita com 60 marcas e varejistas de moda que operam e têm grande influência no Brasil.
Mais iniciativas de moda sustentável na Amazônia
O Amazônia Vox já destacou outros empreendimentos da moda na região que combinam inovação, saberes tradicionais e economia circular. Veja alguns:
-
No Amapá, startups transformam resíduos do cardápio amazônico, como pele de peixe, caroço de açaí e fibra de coco, em matéria-prima para produtos de moda e outros usos, reduzindo impactos ambientais e gerando renda local
-
No Marajó, o Polo de Moda valoriza grafismos ancestrais e fortalece cadeias produtivas com base na cultura local, promovendo pertencimento e novas oportunidades econômicas.
-
Em Belém (PA), brechós impulsionam a economia circular ao prolongar a vida útil das roupas e incentivar o consumo consciente. Ao mesmo tempo, iniciativas no setor de moda e beleza apostam no reaproveitamento de materiais e em processos menos poluentes.
Assine nossa newsletter aqui
Canal Amazônia Vox