Destino Amazônia
Destino Para
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Maretório: o fio invisível que conecta a Amazônia Atlântica

No litoral paraense, raízes invisíveis conectam manguezais, comunidades e modos de vida em um território onde os rios e o oceano escrevem juntos a história da Amazônia.

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Reportagem de Natália Mello.
Edição e Revisão de texto por Carla Fischer e Luciene Kaxinawá.
Coordenação de produção por Luciene Kaxinawá e Mariana Nardin.
Imagens de Márcio Nagano.
Revisão audiovisual de Anna Suav.
Edição final audiovisual de Márcio Nagano.
Este conteúdo integra a série Destino Amazônia, realizada pelo Amazônia Vox com apoio do Sicredi e do Sebrae.

Publicado em 13/08/2026 08:00

Na Amazônia brasileira, o litoral não é regido apenas pelo banzeiro* dos rios. É na foz do rio Amazonas que a água barrenta da maior bacia hidrográfica do planeta encontra o azul profundo do Atlântico e dá origem a um dos ambientes mais ricos do país: um grande estuário formado por ilhas fluviomarítimas, canais e manguezais. Como tudo na região, esse também é um território múltiplo: de vozes, cheiros, sabores e possibilidades de direção. No Pará, o destino corre por baixo da terra. Entre raízes e marés, um fio invisível conecta comunidades inteiras à beira-mar: o maretório.

Berçário da vida, o maretório nasce do encontro entre água e terra, onde o manguezal sustenta uma vasta diversidade de espécies. Em uma espécie de santuário, a natureza e a cultura florescem juntas e conectam pessoas, seus modos de vida e histórias ancestrais.

Mestre Lázaro Amorim
Mestre Lázaro Amorim vive na Vila dos Pescadores e transforma as paisagens do manguezal em inspiração para a música.
Foto: Márcio Nagano.

"É o meu céu na terra. Aqui eu nasci, me criei, namorei, construí família. Aqui eu vivo até hoje. Aqui eu faço música inspirado na garça, no guará, na maré, nas montarias, no caranguejo, no manguezal, na lua, no sol. Para mim, a minha praia - na Vila dos Pescadores - é meu céu, meu céu na terra."

Mestre Lázaro Amorim, Vila dos Pescadores

O sentimento de pertencimento atravessa o relato do mestre de carimbó Lázaro Amorim Fernandes, de 68 anos. O paraíso a que ele se refere é a Vila dos Pescadores, a primeira parada do Destino Amazônia no Pará. O vilarejo fica na Reserva Extrativista Marinha Caeté-Taperaçu, na praia de Ajuruteua, em Bragança, a cerca de 210 quilômetros de Belém. Segundo o guardião, a área começou a ser povoada por famílias cearenses após uma grande seca, em 1913, e foi ali que sua própria família fincou morada e construiu uma história que se confunde com a do lugar.

"Onde eles encostavam, ia ficando cearense. Aqui ficaram cinco: minha avó, Maria de Melo, seus irmãos Constança de Souza Melo e Gabriel Melo; e dois agregados, Raimundo Domingos Melo e Sales Souza Fernandes. Depois, o Sales casou com a Constança, e o Raimundo Domingos Melo casou com a Maria de Melo. Aí ficaram os quatro, os dois casais, e o Gabriel", lembra o compositor de música popular que também é cantor, pescador e carpinteiro.

O Brasil possui a segunda maior extensão de mangue do mundo - a primeira pertence à Indonésia. São 14 mil quilômetros quadrados ao longo da costa, sendo 80% localizados no bioma amazônico, entre Maranhão, Pará e Amapá - um cinturão de 7.210 km2 que forma a maior faixa contínua de manguezais do mundo. Eles são considerados “berçários” da vida marinha, já que são grandes reservatórios de carbono, sendo responsáveis por absorver quatro vezes mais do gás poluente do que qualquer outro bioma existente.

Vila dos Pescadores
A pesca é a principal atividade de subsistência da Vila dos Pescadores e parte essencial da vida no maretório. Foto: Marcio Nagano
Pesca artesanal que sustenta as famílias
Entre rios e manguezais, a pesca artesanal sustenta famílias e preserva saberes transmitidos entre gerações. Foto: Marcio Nagano

Há quase cinco décadas, seu Lázaro assumiu também a posição de liderança comunitária, o que o tornou uma das principais referências da vila. Além de preservar a tradicional festividade de São Pedro*, acompanhou as transformações da vila e fez do cotidiano do manguezal inspiração para mais de 170 composições. Para ele, o turismo abriu novas possibilidades para a comunidade, sem alterar aquilo que continua sendo a base da vida naquele território: "A subsistência daqui é a pesca. O turismo veio para somar."

Mais do que um destino geográfico, a vila representa uma forma de viver o litoral amazônico. Nesse enredo que acompanha o movimento das águas, a comunidade vai mudando com o tempo, mas permanece ligada ao mesmo lugar. Essa relação entre natureza, cultura e sustento transformou o manguezal em música.

Em “Berçário Verde”, seu Lázaro resume em versos aquilo que o manguezal representa para quem vive nele e dele: "Nossos manguezais têm muitos alimentos, onde os ribeirinhos tiram o seu sustento, tiram o caranguejo, tiram o sururu, pega o siri, tira o turu. (...) Por isso proteja nossos manguezais."

Turu
O turu, molusco encontrado nos troncos do mangue, integra a alimentação tradicional das comunidades costeiras.
Foto: Márcio Nagano.

Manguezais guardam riquezas e
diversidade alimentar

Entre os muitos alimentos citados pelo mestre, um chama atenção de quem chega pela primeira vez: o turu. O molusco conhecido como cupim-do-mar que vive escondido nos troncos do mangue e faz parte da alimentação tradicional das comunidades costeiras. É ele quem agora guia a viagem. Para quem chega de fora, experimentar esse alimento pode parecer apenas uma curiosidade gastronômica, mas, para quem vive no ritmo desse maretório, o turu é uma lembrança de que até os troncos do mangue escondem alimento, sustento e vida.

Coleta de Turu
A coleta do turu leva visitantes para dentro do manguezal e aproxima o turismo dos modos de vida locais. Foto: Márcio Nagano.

“Quem vem fazer essa experiência, a gente leva para o mangue, para tirar a colheita do turu", afirma Flávio Gomes, um dos guias por esse caminho. "É importante, porque tem gente que não conhece, não sabe o que é um guará, uma garça, chega aqui tudo é uma novidade, um macaco, um siri...", revela o guia dessa experiência de turismo comunitário.

Enquanto Flávio conduz os visitantes pelos furos dos rios, Linda dos Santos Melo revela a quem chega no Rancho Aimoré outros sabores dessas florestas submersas. Aos 24 anos, ela integra a quinta geração de uma das primeiras famílias da comunidade. Entre a pesca, a coleta do ajiru e o trabalho no turismo, ela viu a Vila dos Pescadores mudar nos últimos anos sem perder a relação com o manguezal. "Para nós, o turismo começou há uns sete anos. Antes da pousada Kiall, a gente sobrevivia só da pesca. Depois que o seu Zé trouxe o projeto, começaram a surgir outros restaurantes, vieram visitantes e apareceram novas oportunidades de trabalho", conta.

Linda dos Santos Melo
Linda dos Santos Melo encontrou no ajiru uma fonte de renda que também ajudou sua família em um momento de dificuldade.
Foto: Márcio Nagano.

Além de preparar a mesa farta do almoço do passeio - com peixe pedra e corvina, e caranguejo toc toc* - nos períodos de menor produtividade da pesca, ela deu continuidade à uma atividade geracional: a coleta de ajiru ou ajuru*, uma frutinha vermelha que deu nome à Praia de Ajuruteua. Linda lembra que foi justamente a renda obtida com o ajiru que permitiu comprar os remédios quando a filha adoeceu, em um período em que a pesca estava ruim. Desde então, o manguezal passou a representar, para ela, mais do que uma fonte de renda: tornou-se também uma garantia de segurança econômica para as famílias da comunidade.

Segundo Linda, o fortalecimento da colheita do fruto e a chegada de uma empresa que utiliza o ajiru como matéria-prima para cosméticos também mudaram a forma como os moradores enxergam a conservação da reserva. "Hoje eu tenho muito mais cuidado em preservar, porque sei que, quando chegar o fim da semana, vou ter meu dinheiro", finaliza.

O que a maior faixa contínua de
manguezais do mundo pode te contar?

Protetor da cultura popular mocoronga - como são chamados os nascidos em Alter do Chão, distrito de Santarém, no oeste do Pará -, Hermes Caldeira aproveita o descanso para valorizar, em família, os caminhos que o Estado proporciona. Fundador do grupo Kuatá de Carimbó e grande anfitrião do Pirarimbó*, ele foi com a esposa e os dois filhos viver a experiência pela Vila dos Pescadores no período em que a equipe também conhecia a região, e descreveu:

Mestre Hermes Caldeira
Mestre Hermes Caldeira reconhece no turismo comunitário uma forma de preservar memórias, tradições e identidades amazônicas.
Foto: Márcio Nagano.

"Uma simples experiência de dar uma volta num canal, de comer turu, para a gente pode parecer pouco, mas para quem está num centro urbano, é uma mega experiência de vida."

Hermes Caldeira, mestre de cultura popular.

Para Hermes, a força do turismo de base comunitária está justamente na capacidade de valorizar a comunidade que vive na região. Ao transformar conhecimentos cotidianos em experiências compartilhadas, é possível também preservar memórias, fortalecer identidades e criar novas oportunidades de renda. "Perguntar o nome de uma árvore, o nome de uma ponta, e a pessoa contar essa história repetidamente é uma das formas que a gente tem, na tradição oral, de salvaguardar as memórias", pontua.

O mestre de carimbó reconhece, nas tradições locais, a manifestação do pertencimento à região do salgado da mesma forma que identifica a conexão do povo de Alter do Chão com as suas origens. “Aqui eles fazem o avoado*, mas lá para a minha terra se chama Piracaia, então são duas tradições que se encontram de formas diferentes, mas também parecidas", analisa. “Apesar de ser uma coisa muito simples, é uma coisa muito poderosa. (...) São muitas Amazônias."

Kiall: hospedagem, gastronomia e turismo comunitário
Na Vila dos Pescadores, hospedagem, gastronomia e turismo comunitário compartilham a paisagem do manguezal.
Foto: Marcio Nagano
Kiall interno
O Kiall integra as experiências de quem percorre o litoral paraense em busca de outras formas de conhecer a Amazônia. Foto: Marcio Nagano

Nesse pedaço da Amazônia costeira, é possível ficar no Kiall Restaurante e Pousada, onde hospedagem, gastronomia e turismo de base comunitária compartilham a mesma raiz. Da Vila dos Pescadores, o litoral segue a contar a própria história. Em Bragança, a fé, a pesca e o oceano fazem parte da mesma paisagem. Do alto do Mirante de São Benedito, por exemplo, o Rio Caeté revela outro ângulo dessa conexão. Todos os anos, no dia 26 de dezembro, milhares de pessoas percorrem as ruas da cidade durante a tradicional Marujada de São Benedito*, celebração que preserva a herança afro-amazônica da região e reafirma a relação entre a cultura popular e as águas que moldam esse cenário.

Kiall: hospedagem, gastronomia e turismo comunitário
Do Mirante de São Benedito, o Rio Caeté revela outro ângulo da paisagem de Bragança. Foto: Marcio Nagano.
Kiall interno
Entre o rio e o oceano, a paisagem de Bragança reúne fé, pesca e cultura popular. Foto: Marcio Nagano.

Deixando as águas do Caeté, a viagem segue outro curso. Mas, por baixo do asfalto, a água continua correndo. E o mesmo manguezal reaparece alguns quilômetros adiante. Antes de voltar à estrada, o caminho nos oferece uma pausa. No Balneário Lago Azul*, o silêncio também faz parte da paisagem e é uma ótima opção para quem busca uma piscina natural - de águas realmente cristalinas - e uma vegetação preservada, como uma espécie de oásis verde.

Balneário Lago Azul
No caminho pelo litoral paraense, o Balneário Lago Azul oferece uma pausa entre águas cristalinas e vegetação preservada. Foto: Márcio Nagano.

As águas que cultivam o futuro

Na Amazônia, a natureza é sujeita da própria história, e todas as suas manifestações ganham vida própria, como personagens de um livro. As próximas protagonistas desse enredo narram outra forma de convivência no mangue, por meio das águas em Nova Olinda - nossa próxima parada.

Nessa comunidade de Augusto Corrêa, município vizinho de Bragança, as raízes do mangue sustentam o cultivo das ostras. Logo, a atividade também significa cuidar da água da qual elas dependem. Ou seja, a premissa para produzir é preservar. Mas esse cultivo em Nova Olinda não surgiu de forma espontânea. A atividade começou a partir de uma pesquisa científica realizada no início dos anos 2000 para avaliar a viabilidade da criação de moluscos no Salgado Bragantino. Quando o financiamento para a etapa de comercialização não avançou, foram os próprios moradores que decidiram dar continuidade ao projeto, criando uma associação que hoje reúne 14 famílias.

As águas do Lago Azul
As águas do Lago Azul compõem a natureza durante o percurso pelo maretório. Foto: Márcio Nagano.
Jorge Reis
Jorge Reis acompanha o cultivo de ostras em Nova Olinda, atividade diretamente ligada à qualidade das águas do estuário.
Foto: Márcio Nagano.

"Hoje, Nova Olinda é uma referência na produção de ostras aqui no Pará. A associação reúne cerca de um milhão e meio de ostras em cultivo. É um trabalho que garante esse alimento na mesa das pessoas e mantém viva a tradição de Nova Olinda como a terra da ostra."

Ao contrário de outras formas de produção, a ostreicultura depende diretamente da qualidade da água. Como as ostras se alimentam naturalmente do fitoplâncton*, organismos presentes no estuário, manter o ambiente preservado deixa de ser apenas uma preocupação ambiental e passa a ser condição para que a atividade continue existindo. "A ostra se alimenta dos próprios recursos naturais da água. Não precisa trazer alimento artificial para colocar nela", explica o ostreicultor Jorge Reis, de 45 anos.

Ostras cultivadas nas águas de Nova Olinda
Cultivadas nas águas de Nova Olinda, as ostras movimentam a alimentação, o trabalho e a renda da comunidade. Foto: Márcio Nagano.

Além de contribuir para a permanência de espécies nativas nos rios, como peixes, caranguejos e siris, o cultivo fortalece a economia das famílias associadas e movimenta empregos diretos na comunidade, ajudando a distribuir renda em Nova Olinda. Para quem vive às margens do manguezal, conservar o território também significa garantir trabalho e permanência. E qual é o diferencial de quem busca essa vivência?

"O nosso foco é produzir uma ostra saborosa. Estamos dentro de uma reserva extrativista, distante dos centros urbanos, onde praticamente não há poluição. Como a ostra filtra a água e se alimenta naturalmente do que existe nela, esse ambiente limpo acaba dando um sabor especial ao produto."

As águas do Lago Azul
As águas do Lago Azul compõem a natureza durante o percurso pelo maretório. Foto: Márcio Nagano.
Salinópolis
Em Salinópolis, o litoral reúne manguezais, praias e diferentes formas de viver e conhecer a costa amazônica. Foto: Márcio Nagano.

Nos últimos anos, a visitação começou a ganhar espaço como uma atividade complementar ao cultivo. A experiência aproxima visitantes da produção artesanal, valoriza o território e abre novas possibilidades de renda, sem romper o equilíbrio do ecossistema que sustenta toda a cadeia. O roteiro integra a Rota Amazônia Azul, iniciativa apoiada pelo Sebrae, que reúne experiências de turismo de natureza e turismo comunitário ao longo da costa paraense, conectando empreendimentos locais e valorizando os modos de vida do litoral.

A lua também conta histórias

Na costa amazônica, podemos usar a luz da noite como guia da viagem, porque aqui, a lua move as marés, revela bancos de areia, esconde caminhos e determina o tempo de quem vive do mar. Entre uma enchente e outra, também alimenta lendas, crenças e formas de enxergar a natureza que atravessam gerações. É nesse ritmo que a nossa expedição chega a Salinópolis. Conhecida pelas praias movimentadas, a cidade também guarda um litoral onde o manguezal, as aves e as histórias antigas tecem um significado abstrato para além da beleza visual incontestável das areias brancas.

Quem conduz essa parte do percurso é Jailson de Souza Corrêa, de 44 anos, tesoureiro da Associação dos Canoeiros da Praça do Pescador. Filho de Salinópolis (conhecida como Salinas), ele cresceu navegando pelos furos do manguezal e hoje ajuda visitantes a descobrir um litoral que vai muito além das praias mais divulgadas. Uma das motivações é buscar opções além da praia do Atalaia, que é um dos principais destinos de veraneio dos paraenses e turistas de outros estados, mas que também é palco de uma polêmica: possibilidade de entrada de carros na faixa de areia, o que divide opiniões. Alguns defendem a comodidade, enquanto outros defendem maior proteção ambiental, inclusive por ser um local que serve de berçário de tartarugas.

Kiall: hospedagem, gastronomia e turismo comunitário
A Praia do Espadarte apresenta um ritmo mais tranquilo para quem busca novas experiências no litoral de Salinópolis. Foto: Marcio Nagano
Kiall interno
A Praia do Espadarte apresenta um ritmo mais tranquilo para quem busca novas experiências no litoral de Salinópolis.
Foto: Marcio Nagano

Em contraponto, ele apresenta a Praia do Espadarte, também localizada em Salinas, onde atua como guia: “Aqui é diferenciado! É a tranquilidade para as famílias que buscam a praia do Espadarte, não tem aquela perturbação de vendedores". De fato, nessa parte, o Atlântico compartilha outro ritmo, e as histórias também ajudam a proteger esse lugar. No imaginário de quem nasceu às margens do mangue, a natureza tem seus próprios guardiões, e um deles continua sendo lembrado sempre que alguém fala em respeito ao território: o Pretinho do Mangue. “Eu creio que ele seja um dos protetores. Quando está estressado, é porque não quer que perturbem a natureza dele.”

Mais do que uma lenda, o relato reforça um sentimento que acompanha quem cresce entre o manguezal e o oceano: o de pertencimento. Para Jailson, preservar essa paisagem também é uma forma de cuidar da própria história e de retribuir aquilo que o território oferece às famílias da região. "Como eu sou salinense e a gente é rico nessa beleza, é nosso dever, como filho de Salinas, cuidar desse patrimônio."

Com as riquezas contidas nas ondas desse mar, a ação humana também deve se preocupar com sua preservação. Em Salinópolis, há outro caminho para os visitantes que também se interessam pelo futuro das belezas naturais. Conchas, escamas de peixe, redes de pesca, troncos carregados pela maré e garrafas de vidro ganham novos significados nas mãos da artesã Cleusine "Nany" Lisboa. Há doze anos, o projeto Presentes da Maré transforma vestígios do litoral em peças de decoração, conectando economia criativa, memória e preservação ambiental.

Cleusine
A artesã Cleusine “Nany” Lisboa transforma materiais trazidos pela maré em peças de arte e decoração. Foto: Márcio Nagano.

Marisqueiros, pescadores, garis e moradores ajudam a reunir materiais que seriam descartados e passam a integrar uma rede de colaboração que beneficia diferentes famílias da cidade. “A gente aproveita o que o marisqueiro retira para a sua sobrevivência, ele não come a casquinha, ele come a massinha (...). O que a gente faz é resgatar o que seria uma poluição para transformar em arte", explica.

Para Nany, preservar não depende apenas de fiscalização, mas de uma sensibilidade coletiva. Por isso, ela troca materiais recicláveis por pequenos brindes, realiza oficinas em comunidades e incentiva moradores a enxergar valor naquilo que antes seria descartado. “A praia que você quer encontrar limpa, você tem que deixar limpa. Você não pode querer encontrar um paraíso e deixar uma zona (...). Se você tem carinho, você preserva. Se você ama, cuida", ressalta. É assim que ela explica a relação que construiu com o lugar onde escolheu viver. "Essa é a minha igreja. É olhar e ver o céu e ver o mar."

Balneário Lago Azul
No projeto Presentes da Maré, resíduos encontrados no litoral ganham novos significados pelas mãos de Nany. Foto: Márcio Nagano.

O cuidado que sustenta as dunas

Embora a ideia de paz seja uma máxima para quem busca seguir o fio do manguezal, Salinas reserva também experiências para quem busca ver a paisagem em movimento - literalmente. Trilhas de quadriciclo cruzam dunas e lagoas, revelando outro modo de percorrer essa região. Mas, até nas aventuras, a natureza continua ditando as regras: a vegetação que fixa a areia, a água preservada e o cuidado diário de quem vive ali são parte do percurso.

Lago da Coca-Cola em Salinópolis
As dunas e lagoas de Salinópolis revelam paisagens moldadas pela água, pelo vento e pela vegetação. Foto: Marcio Nagano

Nos últimos anos, a visitação começou a ganhar espaço como uma atividade complementar ao cultivo. A experiência aproxima visitantes da produção artesanal, valoriza o território e abre novas possibilidades de renda, sem romper o equilíbrio do ecossistema que sustenta toda a cadeia. O roteiro integra a Rota Amazônia Azul, iniciativa apoiada pelo Sebrae, que reúne experiências de turismo de natureza e turismo comunitário ao longo da costa paraense, conectando empreendimentos locais e valorizando os modos de vida do litoral.

No chamado “lago da Coca-Cola”, conhecido por ter águas da cor do refrigerante, quem trabalha conduzindo visitantes acredita que renda e conservação caminham juntas. O movimento gerado pelo turismo beneficia não apenas os condutores, mas também pequenos comerciantes e trabalhadores que dependem da circulação de pessoas para complementar a renda.

"É daqui que a gente tira o sustento da nossa família, e outras pessoas também, como quem cuida dos carros e vende água de coco. A tirolesa também gera renda para outras cinco pessoas", conta Emanoel Carlos, de 21 anos, responsável pelo toboágua que fica no topo da duna que é o pano de fundo da Praia do Atalaia.

Nos últimos anos, a visitação começou a ganhar espaço como uma atividade complementar ao cultivo. A experiência aproxima visitantes da produção artesanal, valoriza o território e abre novas possibilidades de renda, sem romper o equilíbrio do ecossistema que sustenta toda a cadeia. O roteiro integra a Rota Amazônia Azul, iniciativa apoiada pelo Sebrae, que reúne experiências de turismo de natureza e turismo comunitário ao longo da costa paraense, conectando empreendimentos locais e valorizando os modos de vida do litoral.

Lago da Coca-Cola em Salinópolis
Conhecido pela cor de suas águas, o chamado lago da Coca-Cola também movimenta o turismo e a renda local. Foto: Marcio Nagano

Quem conhece esse cenário sabe que sua beleza depende de um equilíbrio delicado. Dunas, lagoas e restingas formam, juntas, um sistema vivo, em que cada peça desse mosaico se torna fundamental para a existência da outra. É preciso cuidado permanente para continuar recebendo visitantes sem perder sua essência. Os trabalhadores afirmam que preservar a vegetação não deveria ser apenas uma preocupação ambiental, já que é a única forma de garantir que essa paisagem continue existindo para as próximas gerações e siga gerando renda para quem depende dela.

“Por exemplo, aqui há uns anos atrás, existia uma duna bem maior do outro lado e por conta que acabaram com a vegetação ao redor dela, essa duna foi se desfazendo com o decorrer do tempo. Então, é importante você preservar a natureza porque se não forem as árvores, essas dunas aqui elas não iriam existir. É isso que faz sustentar tudo isso aqui", finaliza.

Lago da Coca-Cola em Salinópolis
Entre dunas e lagoas, o turismo cria oportunidades de trabalho para quem vive da circulação de visitantes. Foto: Marcio Nagano

Não apenas as dunas. Ao longo do litoral paraense, esse "tudo" também significa trabalho, renda, cultura e modos de vida que dependem diretamente da conservação do manguezal e dos ecossistemas costeiros.

"O turismo passa a ser muito mais do que uma atividade de lazer. Ele incrementa outras atividades econômicas da nossa região, como a pesca artesanal, o artesanato e tantos outros negócios ligados à nossa biodiversidade, que é única e muito rica", afirma Raiana Sousa, gerente de Negócios Pessoa Física do Sicredi Capanema.

Balneário Lago Azul
Ao longo do litoral paraense, natureza, cultura e modos de vida permanecem conectados pelo mesmo fio invisível. Foto: Márcio Nagano.

O fio invisível permanece

Ao longo de mais uma parada da série Destino Amazônia, a viagem pelo litoral paraense revelou muitas formas de existir. A água doce encontrou a salgada, o manguezal mostrou sua pluralidade enquanto alimento, renda, cultura, memória e proteção. As paisagens mudaram junto com as cidades, mas, por baixo da terra e das marés, as mesmas raízes continuaram conectando comunidades inteiras.

Talvez seja essa a maior força do maretório. Um território onde natureza e pessoas não caminham separadas. Onde preservar também significa produzir, educar, receber, contar histórias e garantir que as próximas gerações continuem encontrando vida onde rio e oceano se encontram.

Manguezais de litoral paraense
Entre raízes e marés, os manguezais guardam alimento, sustento, memória e vida. Foto: Márcio Nagano.

É o fim da nossa viagem pelo litoral da Amazônia paraense, mas não do caminho. Existem muitas Amazônias esperando para serem descobertas, cada uma com seus próprios sons, paisagens e modos de viver. E, junto com o movimento das marés, a voz de Seu Lázaro permanece ecoando entre os manguezais:

“Nossos manguezais tem muitos alimentos, onde os ribeirinhos tiram o seu sustento, tiram o caranguejo, tiram o sururu, pega o siri, tira o turu. Olha esses mariscos, todos naturais. Por isso proteja nossos manguezais.”

Glossário

Maretório: território costeiro onde mar, rios, manguezais, comunidades tradicionais e modos de vida estão profundamente conectados. O conceito reconhece que natureza, cultura, trabalho e identidade formam um mesmo sistema de vida.

Avoado ou avuado: técnica ancestral de assar peixe diretamente na brasa, bastante comum em comunidades ribeirinhas da região Norte do Brasil.

Ajiru ou Ajuru: com nome científico de Chrysobalanus icaco, esta fruta pode ser encontrada em regiões de restinga e praias. Com frutos de casca vermelha e polpa branca, a árvore pode alcançar cerca de 10 metros de altura e as folhas também podem ser usadas para na medicina popular. Nos últimos anos, o fruto passou a ser utilizado como matéria-prima pela indústria de cosméticos, agregando valor econômico à espécie e ampliando seu potencial de uso pelas comunidades locais.

Balneário Lago Azul: Localizado no interior do município de Augusto Corrêa (PA), com acesso pela PA-462, na entrada da comunidade do Cafezinho. O espaço fica a 6km de estrada não pavimentada, a partir da rodovia estadual.

Banzeiro: nome dado ao movimento intenso das águas provocado pela passagem de embarcações, pelos ventos ou pelas correntes dos rios amazônicos. Dependendo da intensidade, pode formar ondas que dificultam a navegação.

Caranguejo toc toc: um prato popular da culinária litorânea do Brasil, famoso pelo som do martelinho batendo na casca e pelo preparo simples do crustáceo inteiro.

Festa de São Pedro: tradição centenária criada pelos primeiros moradores da Vila dos Pescadores. Realizada anualmente, completou 103 anos em 2026 e é presidida por Seu Lázaro há 25 anos, dando continuidade ao legado iniciado por seu pai.

Fitoplâncton: conjunto de organismos aquáticos microscópicos que realizam fotossíntese, como microalgas e cianobactérias, vivendo dispersos e flutuando na superfície de oceanos, rios e lagos.

Marujada de São Benedito: celebração religiosa e cultural que reúne milhares de pessoas no dia 26 de novembro todos os anos, em Bragança, no nordeste do Pará. Se destaca por rituais de fé, danças tradicionais e forte resistência negra.

Pirarimbó: Iniciativa imersiva criada pelo mestre Hermes Caldeira, de Santarém, que mistura batuques, lendas da região, vivências ribeirinhas e a tradicional piracaia (peixe assado na fogueira à beira da praia).

Quer saber mais sobre a poesia do Maretório?

Conheça: Mestre Lázaro

Ouça: Podcast Mexericos na Maré

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