*Por José Mattos
A comida participa da diplomacia há muito mais tempo do que a palavra gastrodiplomacia. Banquetes foram usados durante séculos para receber visitantes, demonstrar poder, criar confiança e até tornar conversas difíceis um pouco menos difíceis. Comer junto produz uma proximidade que uma mesa de negociação, sozinha, raramente consegue criar. O que mudou nas últimas décadas foi a percepção de que essa capacidade da comida poderia deixar de ser apenas parte do protocolo diplomático e se transformar em estratégia deliberada de projeção de um país.
A expressão gastrodiplomacia entrou no vocabulário contemporâneo em 2002, quando a revista The Economist publicou um artigo sobre o Global Thai, programa criado pelo governo da Tailândia para estimular a presença da culinária tailandesa no exterior. A ideia era engenhosa porque parecia simples. Restaurantes espalhados pelo mundo poderiam funcionar como pequenas embaixadas culturais, apresentando o país a milhões de pessoas que provavelmente nunca teriam contato com uma missão diplomática, uma campanha institucional ou um documento de política externa. Em torno deles vieram promoção turística, certificação, formação, exportação de ingredientes, apoio empresarial e uma estratégia mais ampla de reputação nacional.
Outras experiências seguiram caminhos próprios. O Peru percebeu que sua enorme diversidade culinária poderia ajudar a reconstruir a imagem externa do país e, ao mesmo tempo, produzir identidade internamente. A força daquele movimento não veio apenas do Estado. Cozinheiros, produtores, empresários, intelectuais, jornalistas e organizações se encontraram em torno de uma ambição comum, e a gastronomia acabou entrando definitivamente na economia, no turismo e na identidade peruana. A Coreia do Sul incorporou a comida a um movimento muito maior de projeção cultural, que já envolvia música, audiovisual, tecnologia e design. A Malásia trabalhou a comida halal como ativo cultural e econômico. Em cada caso, por caminhos diferentes, a comida deixou de ser apenas aquilo que um país servia e passou a fazer parte da maneira como esse país queria ser percebido.
Há muito que aprender com essas experiências. Mas, copiar qualquer uma delas seria um erro, pois a Amazônia não é a Tailândia, o Peru ou a Coreia. Não corresponde a uma única nação, não possui uma cozinha nacional que possa ser organizada sob uma mesma bandeira e, talvez mais importante, não deveria sequer tentar produzir uma imagem culinária excessivamente homogênea de si mesma. A força da Amazônia está justamente no contrário. Ela está nas diferenças entre seus territórios, na enorme diversidade biológica e cultural e nas distintas maneiras pelas quais povos indígenas, comunidades tradicionais, populações urbanas, migrantes e diferentes ciclos históricos combinaram ingredientes, técnicas e conhecimentos.
Gosto, por isso, da ideia de pensar a Amazônia a partir de suas “cozinhas do encontro”, pois não existe uma única forma amazônica de preparar, comer ou compreender a comida. A cozinha paraense não é a mesma do Alto Rio Negro. As tradições alimentares do Acre não são as mesmas do Marajó. A Amazônia peruana, colombiana, equatoriana ou boliviana adiciona outras camadas a essa diversidade. O que há em comum não é uma receita. É uma relação profunda entre comida e território.
Esse ponto é fundamental porque a discussão sobre gastronomia amazônica costuma deslizar rapidamente para os ingredientes. Açaí, cacau, castanhas, tucupi, jambu, cumaru, pirarucu, mandioca, pimentas, méis e uma quantidade enorme de frutas aparecem como símbolos de uma biodiversidade quase inesgotável. Isso é verdade, mas é apenas uma parte da história. Um ingrediente sozinho diz muito pouco sobre o sistema que o tornou possível. Atrás dele existem pessoas, conhecimentos, formas de manejo, técnicas de processamento, relações de trabalho, mercados, embarcações, pequenas fábricas, cozinhas, feiras, histórias familiares e, muitas vezes, séculos de experimentação.
Talvez por isso eu tenha cada vez mais dificuldade em separar gastronomia de desenvolvimento quando penso na Amazônia, e os números ajudam a entender por quê.
Um levantamento sobre o Sistema Comida na Amazônia Legal mostrou que mais de 3,5 milhões de pessoas trabalhavam em atividades relacionadas à produção, ao processamento, à distribuição, ao consumo e aos serviços ligados à alimentação. Era aproximadamente um terço de todas as pessoas ocupadas na região. Nas áreas rurais, a participação chegava perto de sete em cada dez trabalhadores. Ao mesmo tempo, o sistema convivia com informalidade muito elevada e rendimentos menores do que a média de outros setores.
Portanto, quando falamos de comida na Amazônia, não estamos tratando de uma agenda lateral da bioeconomia. Estamos falando de uma parte muito concreta da vida econômica da região e de milhões de pessoas que já fazem essa economia existir, quase sempre em condições muito menos sofisticadas do que a sofisticação com que apresentamos a biodiversidade amazônica em conferências internacionais. E, nesse cenário, temos uma importante contradição.
A Amazônia possui uma das maiores diversidades alimentares do planeta, mas ainda captura muito pouco do valor econômico que essa diversidade pode gerar. Estudos sobre produtos compatíveis com a floresta mostram que a região participa de uma parcela minúscula dos mercados globais correspondentes, mesmo quando possui origem, biodiversidade e conhecimento associados a esses produtos.
O problema, portanto, não é apenas produzir. É transformar origem em diferenciação, diferenciação em reputação e reputação em valor que permaneça ligado ao território.
Recentemente, em um encontro internacional, ouvi de um grupo de investidores estrangeiros uma observação que me fez pensar bastante sobre a forma como apresentamos os produtos amazônicos. Para eles, preço era importante, claro, mas não bastava. Qualidade já era uma condição de entrada no mercado e, de certa forma, algo que o consumidor esperava encontrar refletido no próprio preço. O que realmente ajudava um produto a ganhar espaço era a experiência que ele conseguia criar.
Segundo meu interlocutor, isso aparecia com ainda mais força em alimentos, bebidas e até cosméticos, nos quais o primeiro contato passa pela embalagem, pela forma de apresentação, pelo modo como se conta a origem e, principalmente, pela capacidade de fazer com que alguém queira se aproximar daquele produto antes mesmo de conhecê-lo por completo. A conversa me fez perceber que talvez ainda estejamos dedicando energia demais a provar que a Amazônia tem produtos bons. Isso o mundo começa a saber. O desafio agora é fazer com que esses produtos cheguem ao mercado com a mesma força que têm quando ainda estão no território, porque valor também se perde quando a origem chega mal contada.
Nossa história, sempre afiada em roteiros extraordinários, oferece vários alertas. A borracha saiu daqui e construiu uma indústria muito mais competitiva do outro lado do mundo. O cacau amazônico tornou-se uma grande commodity internacional em outras geografias. A mandioca foi domesticada na Amazônia há milhares de anos e hoje tem algumas de suas cadeias mais competitivas na Ásia e na África. Há uma ironia particularmente interessante no fato de a Tailândia, país que ensinou ao mundo uma das estratégias mais conhecidas de gastrodiplomacia, também ter se tornado uma potência econômica da mandioca.
O açaí talvez seja o exemplo contemporâneo mais provocador. Em poucas décadas, uma comida profundamente ligada aos hábitos amazônicos atravessou o Brasil e ganhou o mundo. É provavelmente um dos maiores casos recentes de internacionalização espontânea de um alimento amazônico. Mas seu sucesso também deveria nos fazer uma pergunta menos confortável. O mundo aprender a consumir açaí significa que aprendeu alguma coisa sobre a Amazônia? Não parece ser o caso.
Em muitos mercados, o açaí se afastou completamente da experiência cultural de sua origem. Isso não é necessariamente um problema. Cozinhas viajam, ingredientes mudam e culturas se misturam. Seria absurdo exigir que alguém em Los Angeles, Tóquio ou Berlim consumisse açaí exatamente como se consome em Belém. O problema aparece quando a internacionalização do produto se torna progressivamente independente da internacionalização do valor de sua origem.
Se outros territórios passam a produzir, processar, comunicar e comercializar melhor aquilo que nasceu aqui, a Amazônia pode ganhar visibilidade e perder relevância econômica ao mesmo tempo. Essa possibilidade deve estar no centro de qualquer estratégia de gastrodiplomacia amazônica.
Durante muito tempo, a Amazônia funcionou como uma espécie de almoxarifado global de biodiversidade. Produtos, conhecimentos e recursos saíam daqui para ganhar processamento, marca, tecnologia e valor em outros lugares. A bioeconomia nasceu, em parte, como uma tentativa de alterar essa lógica. Só que há uma dimensão que às vezes deixamos escapar. Não basta processar mais localmente ou abrir novos mercados. É necessário construir reputação para os territórios de origem, porque reputação também é um ativo econômico. E é exatamente nesse ponto que a gastrodiplomacia ganha uma força mobilizadora intensa e necessária no cenário do desenvolvimento amazônico.
Tenho participado de algumas experiências em que colocamos a comida amazônica diante de públicos internacionais, inclusive em Berlim, em parceria com parceiros locais de Belém. Nessas ocasiões, fica evidente como a comida muda a qualidade da conversa. Um ingrediente que chegaria a uma reunião descrito como produto da sociobiodiversidade chega à mesa com cheiro, textura, história e pessoas por trás dele. Diplomatas, investidores, compradores, pesquisadores e organizações que talvez discutissem a Amazônia durante horas por meio de conceitos abstratos passam a experimentar alguma coisa concreta daquele território.
Essa capacidade de aproximação é extraordinária, mas também pode nos enganar. Um jantar bem executado produz atenção. Não necessariamente produz transformação. Pode gerar uma bela fotografia, algumas conversas e uma experiência inesquecível, sem alterar em nada a vida de quem produz aquilo que foi servido. Nessa encruzilhada, precisamos notar que a diferença entre promoção gastronômica e gastrodiplomacia começa justamente aí.
Para fazer sentido na Amazônia, a gastronomia precisa ser capaz de abrir uma relação que continue depois que a mesa for retirada. Uma relação que possa chegar a compradores, mercados, turismo, investimento, filantropia, intercâmbio, pesquisa, inovação e cooperação. Isso exige muito mais do que bons cozinheiros. Exige rastreabilidade, padrões sanitários, logística, regularidade de fornecimento, processamento, contratos, organização dos produtores, identidade territorial e capacidade de contar a origem sem transformá-la em folclore.
Em outras palavras, a gastrodiplomacia não substitui o desenvolvimento produtivo. Ela o provoca.
Também não basta afirmar que determinada comida vem de uma comunidade, de um povo indígena ou de um território tradicional. Existe uma pergunta que considero incontornável. Quando o valor simbólico daquela origem aumenta, quem participa do valor econômico que foi criado?
Essa pergunta toca num ponto delicado da própria ideia de soft power. A cultura pode gerar enorme valor sem que esse valor retorne proporcionalmente a quem a produz. Uma estratégia amazônica precisa enfrentar esse problema desde o começo. Autoria, consentimento, remuneração, propriedade intelectual, origem, reconhecimento e repartição de benefícios não deveriam entrar depois como salvaguardas. Deveriam fazer parte da própria arquitetura.
É por isso que tenho pensado cada vez mais nos cozinheiros tradicionais, produtores, mestres de farinha, pescadores, extrativistas, feirantes, pesquisadores, empreendedores e lideranças comunitárias como guardiões da cultura alimentar. O chef tem um papel enorme, inclusive porque consegue traduzir uma cultura para públicos que não a conhecem. Mas seria empobrecedor imaginar que a diplomacia da comida começa no restaurante. Ela começa muito antes, no território onde os ingredientes, os conhecimentos e os modos de fazer permanecem vivos.
Essa perspectiva altera também a escala do debate. Talvez o objetivo não seja simplesmente construir uma marca gastronômica da Amazônia. Marcas precisam simplificar para serem reconhecidas. A Amazônia precisa ser reconhecida sem ser simplificada demais. Seu poder está na capacidade de produzir uma narrativa comum sem eliminar as diferenças internas. Por isso, me interessa mais imaginar uma gastrodiplomacia territorial e pan-amazônica, capaz de conectar cozinhas, pessoas e territórios diferentes em torno de alguns princípios compartilhados.
Uma gastrodiplomacia dessa natureza poderia cumprir duas funções ao mesmo tempo. Para fora, ajudaria a criar desejo, reputação, conhecimento e confiança em torno dos territórios amazônicos. Para dentro, poderia estimular a cooperação entre atores que normalmente trabalham separados, criar padrões, formar pessoas, organizar mercados, aproximar ciência e conhecimento tradicional e fortalecer aquilo que os economistas chamariam de recursos compartilhados de um setor.
Essa segunda função é menos sedutora para uma fotografia, mas talvez seja a mais importante. A reputação internacional de um produto amazônico só será duradoura se houver capacidade territorial para sustentá-la. Se um jantar em Berlim desperta interesse por tucupi, alguém precisa conseguir produzi-lo com qualidade, regularidade e segurança. Se um comprador descobre um pescado manejado de forma sustentável, é necessário haver organizações capazes de negociar e cumprir contratos. Se um mercado começa a valorizar determinada origem, essa origem precisa estar protegida e ser reconhecida. Se a gastronomia aumenta o desejo pela Amazônia, a economia amazônica precisa estar preparada para transformar parte desse desejo em desenvolvimento.
Essa é a conexão que vejo entre gastrodiplomacia e prontidão territorial. A primeira pode abrir portas que relatórios técnicos e apresentações empresariais dificilmente abririam. A segunda determina se teremos condições de atravessá-las.
A Amazônia passou décadas tentando convencer o mundo de sua importância, explicando aquilo que seria perdido com a destruição da floresta. Essa narrativa continua necessária. Há coisas que simplesmente não podemos perder. Mas ela não precisa ser a única linguagem da nossa relação com o mundo.
Podemos também apresentar aquilo que os territórios amazônicos conhecem, criam, produzem e podem oferecer sem destruir a origem que torna tudo isso possível. A comida talvez seja uma das melhores linguagens para fazer essa passagem, porque consegue colocar biodiversidade, cultura, economia e memória dentro da mesma experiência. Só precisamos resistir à tentação de confundir visibilidade com desenvolvimento.
Se fizermos isso direito, a gastrodiplomacia amazônica poderá ser muito mais do que uma estratégia para levar nossos sabores ao mundo. Poderá ajudar a construir relações nas quais o mundo se aproxime dos territórios amazônicos, reconheça seu conhecimento, compreenda melhor sua diversidade e participe de economias capazes de manter valor, capacidades e oportunidades onde esses alimentos nasceram.
Caso contrário, podemos chegar a uma situação bastante paradoxal. O mundo conhecerá cada vez mais o açaí, o cacau, a mandioca, o tucupi, o cumaru e outros sabores amazônicos, enquanto precisará cada vez menos da própria Amazônia para consumi-los. É justamente essa distância entre a fama dos nossos produtos e a força dos nossos territórios que uma gastrodiplomacia verdadeiramente amazônica deveria ajudar a reduzir.
*José Mattos é um amazônida, psicólogo e mestre em Sociologia pela Universidade de Coimbra, com certificações profissionais do BID (indicadores de desenvolvimento), Universidade de Cambridge (ESG) e Universidade de Oxford (Filantropia Estratégica). Fundou e é Diretor Executivo da ViaFloresta um hub de inovação e Impacto dedicado a desenvolver territórios complexos. Atualmente, é também responsável por assuntos corporativos na Amazon Investor Coalition (AIC).
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