Por Thais Fernandes*
Foto capa: Marcio Nagano
Poucos temas ocupam hoje um espaço tão relevante nas discussões globais quanto a Inteligência Artificial e a Amazônia. A primeira é apontada por organismos internacionais, centros de pesquisa e pelo Fórum Econômico Mundial como uma das tecnologias mais transformadoras do século XXI. A segunda está no centro dos debates sobre mudanças climáticas, biodiversidade, segurança hídrica e sustentabilidade planetária, pautando agendas da ONU (Organização das Nações Unidas), do Intergovernmental Panel on Climate Change e das conferências climáticas mundiais.
Embora frequentemente apareçam em campos distintos, tecnologia de um lado e meio ambiente de outro, existe um ponto de encontro entre elas que recebe pouca atenção: ambas nos obrigam a refletir sobre conhecimento.
A Inteligência Artificial aprende a partir dos conhecimentos que a humanidade produz. Livros, pesquisas, artigos científicos, imagens, documentos e bases de dados alimentam sistemas que já começam a influenciar decisões em áreas como saúde, educação, finanças, ciência e gestão pública. Ou seja, depende de um processo anterior de aprendizagem. E toda aprendizagem depende de repertório. O desafio não está na falta de conhecimento produzido no mundo, mas na forma desigual como determinados saberes circulam, ganham legitimidade e alcançam os espaços de decisão.
Estudos da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) e da literatura internacional sobre comunicação científica demonstram que a produção acadêmica global continua fortemente concentrada em determinados países, instituições e idiomas. O inglês consolidou-se como principal língua da circulação científica internacional, influenciando quais pesquisas alcançam maior visibilidade, quais autores se tornam referência e quais narrativas passam a integrar os sistemas globais de informação.
Nem todos os saberes possuem as mesmas condições de reconhecimento. Nem todos alcançam os mesmos espaços de validação. Nem todos chegam aos sistemas que ajudarão a organizar parte crescente das decisões humanas. É nesse contexto que a Amazônia assume uma relevância que ultrapassa as discussões ambientais.
Durante décadas, a região foi observada principalmente a partir de sua biodiversidade, de seus recursos naturais ou de sua importância climática. São dimensões fundamentais. Mas existe uma camada menos explorada: a Amazônia também é uma produtora de conhecimento.
A floresta como laboratório e biblioteca
Ao discutir a ecologia dos saberes, o sociólogo Boaventura de Sousa Santos argumenta que nenhuma forma de conhecimento é suficiente, isoladamente, para compreender a complexidade da realidade. A ciência é indispensável. Mas não é a única produtora de saber.
A Amazônia materializa essa reflexão de maneira concreta
Estamos diante de um território que não produz apenas biodiversidade, mas também conhecimento. A Amazônia abriga universidades e centros de pesquisa que figuram entre as principais referências brasileiras nos estudos sobre o próprio bioma. A Universidade Federal do Pará, maior instituição de ensino superior da Amazônia, lidera a produção científica da região em diversas áreas do conhecimento, enquanto o Instituto Evandro Chagas consolidou-se como referência internacional em pesquisas sobre doenças tropicais, saúde ambiental e vigilância em saúde amazônica.
Ao mesmo tempo, persistem conhecimentos construídos ao longo de séculos por povos indígenas, comunidades tradicionais e populações ribeirinhas. Ao longo de gerações, esses povos desenvolveram formas sofisticadas de compreender ciclos climáticos, comportamento de espécies, dinâmica dos rios, manejo de recursos naturais e relações ecológicas complexas. Trata-se de um conhecimento construído pela observação contínua, pela experiência acumulada e pela transmissão entre gerações.
Essa produção de conhecimento alcança também o campo da saúde. Parte importante do conhecimento tradicional amazônico envolve o uso de plantas medicinais, práticas de cuidado, observação de sintomas e compreensão das relações entre ambiente, alimentação e bem-estar. Não por acaso, diversos estudos em etnobotânica e farmacologia têm demonstrado a relevância desses saberes para pesquisas contemporâneas sobre medicamentos, biodiversidade e saúde coletiva.
A reflexão ganha atualidade em um momento em que sistemas de Inteligência Artificial começam a apoiar diagnósticos, pesquisas clínicas e tomadas de decisão em saúde. Afinal, quais conhecimentos estão participando da formação dessas tecnologias? E quais permanecem pouco documentados, pouco digitalizados ou insuficientemente representados nos ambientes que alimentam os sistemas inteligentes?
Muito antes de o mundo transformar sustentabilidade em conceito, diferentes povos amazônicos já experimentavam formas de coexistência com a floresta capazes de garantir sua permanência ao longo dos séculos. Não porque rejeitassem aquilo que se entendia erroneamente sobre desenvolvimento, mas porque compreendiam algo que a humanidade ainda tenta aprender: prosperar não precisa significar romper com os sistemas que sustentam a vida.
O "ponto cego" algorítmico
A Amazônia também é um território de múltiplas linguagens. O Brasil abriga mais de 270 línguas indígenas vivas, concentradas majoritariamente na região amazônica. Cada uma delas carrega formas próprias de nomear a natureza, interpretar o território e transmitir conhecimento entre gerações. Mais do que instrumentos de comunicação, essas línguas expressam maneiras particulares de compreender a realidade.
Essa diversidade encontra um desafio adicional na própria arquitetura das tecnologias contemporâneas. Grande parte dos avanços em Processamento de Linguagem Natural, área que sustenta os atuais modelos de Inteligência Artificial, depende da existência de grandes volumes de dados digitais para treinamento. Pesquisadoras como Emily Bender e Timnit Gebru vêm demonstrando que sistemas de linguagem refletem as distribuições presentes nos dados que os alimentam. Línguas de tradição oral ou com baixa presença em ambientes digitais possuem menos registros, menos bases de dados e menor representação nos sistemas computacionais.
O resultado é que determinadas formas de conhecimento encontram mais obstáculos para serem compreendidas, preservadas e incorporadas pelas tecnologias que passam a organizar parte crescente da informação global. Quando transportamos essa discussão para a era da Inteligência Artificial, emerge uma questão que ultrapassa a tecnologia: quais conhecimentos estão efetivamente participando da formação das inteligências que ajudarão a orientar decisões futuras?
O problema, portanto, não é apenas tecnológico. É também epistemológico. Essa percepção ganha relevância diante dos desafios que definem o século XXI. Mudanças climáticas, segurança hídrica, perda de biodiversidade, transição energética e construção de novos modelos de desenvolvimento são problemas marcados por interdependências complexas. Nenhum deles pode ser compreendido de forma isolada. A Inteligência Artificial certamente aprenderá sobre a Amazônia. O ponto central está na qualidade desse aprendizado e na diversidade de conhecimentos que participarão da sua formação.
Os sistemas de IA são extraordinariamente eficientes na identificação de padrões. Parte significativa dos conhecimentos produzidos na Amazônia, por sua vez, foi construída a partir da compreensão das relações que conectam esses padrões: relações entre floresta e clima, entre rios e modos de vida, entre biodiversidade e sobrevivência, entre território, cultura e futuro. Existe uma diferença importante entre descrever um sistema e compreender as relações que o sustentam.
O líder indígena Ailton Krenak tem chamado atenção para a necessidade de repensarmos a forma como compreendemos desenvolvimento, progresso e natureza. Em perspectiva semelhante, Davi Kopenawa demonstra que diferentes formas de conhecimento podem oferecer leituras complementares sobre a relação entre humanidade e ambiente. O desafio consiste em reconhecer que os problemas contemporâneos são complexos demais para caber em uma única forma de inteligência. A maior contribuição da Amazônia para o debate sobre Inteligência Artificial pode estar menos naquilo que ela ensina às máquinas e mais naquilo que nos obriga a refletir sobre conhecimento, inteligência e futuro.
Enquanto o mundo busca desenvolver sistemas capazes de aprender cada vez mais rápido, a Amazônia nos convida a refletir sobre uma questão anterior: quais conhecimentos consideramos valiosos o suficiente para ensinar.
Toda Inteligência Artificial aprende a partir de uma seleção
Essa seleção, porém, não ocorre de forma automática ou exclusivamente técnica. A forma como a Inteligência Artificial "ouve" o mundo resulta de escolhas políticas, éticas e institucionais feitas por quem desenvolve, financia, programa e alimenta esses sistemas. Decidir quais dados serão preservados, quais idiomas serão digitalizados, quais conhecimentos serão documentados e quais vozes serão incorporadas aos modelos de IA significa, em última instância, decidir quais perspectivas terão condições de participar da construção do futuro.
E toda seleção envolve escolhas sobre quais vozes serão ouvidas, quais experiências serão valorizadas e quais conhecimentos serão considerados relevantes para orientar o futuro. Afinal, a Inteligência Artificial consegue ouvir aquilo que consegue acessar. E consegue acessar aquilo que a humanidade escolhe preservar, registrar e tornar visível.
Ao mesmo tempo, debates internacionais sobre soberania de dados indígenas e ética da Inteligência Artificial começam a discutir quem participa da produção e da governança dos conhecimentos utilizados por essas tecnologias. Essas discussões reforçam a importância de fortalecer a pesquisa científica produzida na Amazônia, ampliar a presença amazônica nos espaços de produção e circulação do conhecimento e reconhecer que diferentes formas de saber também podem contribuir para a construção das soluções que o século XXI exigirá.
A Inteligência Artificial já contribui para o monitoramento do desmatamento, para a proteção da biodiversidade, para pesquisas em saúde e para a compreensão de fenômenos ambientais complexos. Seu potencial para apoiar soluções relacionadas ao clima, à conservação e ao desenvolvimento sustentável é significativo. Mas a tecnologia, por si só, não produz conhecimento. Ela amplia capacidades humanas.
Por isso, a pergunta central não é apenas o que a Inteligência Artificial pode aprender sobre a Amazônia. Mas sim, quais conhecimentos da Amazônia participarão da construção do futuro?
Fortalecer a presença da Amazônia na era da Inteligência Artificial exige mais do que avanços tecnológicos. Exige políticas públicas que promovam a digitalização, a documentação e a preservação das línguas indígenas, dos saberes tradicionais e da produção científica amazônica, respeitando a soberania dos povos sobre seus conhecimentos. Garantir que essa diversidade de saberes esteja presente nos ambientes digitais é uma condição para que as tecnologias do futuro reflitam, de forma mais justa e plural, a riqueza de conhecimentos que a Amazônia produz.
Porque os desafios ambientais, sociais e econômicos deste século exigirão mais do que tecnologia. Exigirão conhecimento, pesquisa, diversidade de perspectivas e capacidade de compreender sistemas complexos.
E a Amazônia tem muito a ensinar sobre isso.
Quem é a autora?

*Thaís Fernandes
Graduada em Marketing, com MBA em Gestão e Desenvolvimento de Pessoas pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e Mestre em Comunicação, Linguagens e Cultura, na linha de pesquisa Sociedade, Representações e Tecnologia. Atualmente, é Diretora da Afya Educação Médica em Belém. Possui mais de 10 anos de trajetória no setor educacional, com atuação como professora, gestora acadêmica e diretora, além de experiência em posições de liderança em diferentes contextos organizacionais.
Atua também com projetos de consultoria em gestão, com foco em desenvolvimento organizacional, estratégia e pessoas. É autora de artigos e revisora técnica de livros, com produção voltada às áreas de comunicação, educação e gestão.
Ao longo de sua carreira, ministrou palestras, cursos e workshops no Brasil e no exterior, abordando temas como gestão, liderança, marketing, comunicação, desenvolvimento sustentável para a Amazônia, empregabilidade, educação, capacitação de professores, inovação e o protagonismo feminino no mercado de trabalho.
Assine nossa newsletter aqui
Canal Amazônia Vox