José Kaeté, Larissa Noguchi, e Daniel Nardin
Foto capa: Marcio Nagano
Como diz o jargão da internet, expectativas foram criadas. A COP da Amazônia, a COP das Florestas, a COP da Verdade. A trigésima edição da conferência das partes da Convenção Quadro das Nações Unidas sobre mudanças climáticas, a COP30, iniciou em Belém tão quente como um planeta que ferve mais a cada ano e como a capital paraense costuma ser, situada na região conhecida por ser quente e úmida durante todo o ano.
O presidente Lula, na Conferência de Líderes e na abertura da COP30, deu o recado: gostaria que a COP30 entregasse um “roadmap”, um mapa do caminho para a tão falada transição energética para longe do uso intensivo de combustíveis fósseis, maiores responsáveis pela emissão de Gases de Efeito Estufa (GEE) que aquecem o planeta. Após idas e vindas, protestos na área de negociações e nas ruas de Belém, o que saiu permite aquele velho olhar para o copo meio cheio ou meio vazio.
Por um lado, o texto final do chamado Mutirão proposto pelo Brasil não fez qualquer menção aos combustíveis fósseis. Por outro, a presidência brasileira da COP - que prossegue na liderança até o início da COP31 na Turquia, com mandato da Austrália - comprometeu-se a elaborar um texto com o mapa do caminho. Para então ser apresentado e debatido até a próxima edição da COP. Ou seja, um tema a ser abordado pelo jornalismo ao longo de todo 2026.
Apresentar é uma coisa, aprovar é outra
Se uma COP fosse narrada por Galvão Bueno, ele diria que apresentar é uma coisa, aprovar é outra. E a COP30 mostrou o quanto existe uma enorme diferença entre essas duas ações: intenção e ação. Tal como um piloto “encostar” no outro é uma coisa e ultrapassar é bem diferente: exige mais potência, habilidade e senso de oportunidade.
Para isso, o tempo até joga a favor do presidente da COP30, embaixador André Corrêa do Lago, que está confiante e afirmou que “serão onze meses para articular, dialogar e trabalhar um texto”. Porém, onze meses passam rápido. E a crise climática é, afinal, urgente.
Sem texto, mas com mandato. Ok, convenhamos… Não é muita coisa, mas também não é nada. Ter esse objetivo num cenário de pressão dos países petroleiros árabes, com os Estados Unidos - maior emissor histórico - ignorando os alertas da ciência e seguindo na linha “perfure, baby, perfure”, torna tudo mais difícil. O bloco europeu, por sua vez, tem propositadamente se apagado das discussões. Como se diz por aqui no Norte: “me mira, mas me erra”.
A tarefa de André Corrêa do Lago não será fácil. Mas a reconhecida habilidade e o tempo podem ajudar e, se algo sair, o neto de Oswaldo Aranha, que liderou a primeira Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), pode ter também seu nome na história, ao lado de Ana Toni diretora executiva da COP e de Marina Silva, ministra do meio ambiente e mudança do clima. Desde que, claro, eles tenham espaço para isso no cenário interno. Afinal, se quer liderar a transição energética no cenário global, é preciso dar exemplo em casa.
Um ponto a favor para avançar nesse texto é a pressão da ciência. Pela primeira vez em uma COP, um Pavilhão de Ciências Planetárias foi montado com debates, apresentações de trabalhos e pesquisadores acompanhando e pressionando as declarações. A falta de um roadmap foi apontada como traição por Carlos Nobre, um dos maiores cientistas climáticos da atualidade.
Na COP30, o coro da sociedade civil, dos povos indígenas e da ciência foi um só: as metas e os textos não consideram a urgência e, se ficar tudo como está, a política está nos levando para um abismo climático.
Esse alerta foi repetido pelos povos indígenas que questionaram o modelo de participação na Zona Azul, impuseram a pauta da demarcação de terras indígenas e escancararam violações aos direitos dos povos originários e tradicionais.
Sem convite formal, além dos círculos de participação e acesso para dezenas de lideranças à Blue Zone - o espaço oficial - foi no grito e nas ruas que os povos originários tornaram essa COP a mais indígena de todas as edições. E deixaram um recado para o jornalismo em 2026: ouçam além das autoridades de gravata e abram mais espaço para as autoridades de cocar.
A COP das Florestas foi um slogan carregado de marketing. Embora tenha um importante simbolismo por ter sido realizada pela primeira vez na Amazônia, a cidade de Belém expôs a contradição que, muitas vezes, não está presente no imaginário coletivo inventado sobre a região, para lembrar da expressão “Amazônia Inventada”, de Neide Gondim.
A Amazônia urbana enfrenta graves problemas de infraestrutura. A imprensa nacional e internacional decidiu focar na afirmação de que “Belém não tem estrutura” em vez de questionar de forma construtiva e lembrar que Belém, como Manaus e as demais sete capitais da Amazônia Legal, também é Brasil.
O jornalismo, ao invés de apontar o dedo, poderia propor um debate por meio de um questionamento ao próprio país, enquanto Estado e nação: “Por que Belém não tem tanta estrutura como o eixo Rio-SP?”. Talvez esse ponto - que vale para outras regiões - ajudasse mais a compreender uma região que, historicamente, não recebeu os mesmos investimentos que o eixo sul-sudeste.
Em 2026, o jornalismo deve aprofundar e contextualizar, compreendendo e questionando com dados e fatos o quanto a região Norte foi, ao longo de séculos, tratada como almoxarifado da nação. Uma colônia do próprio país, como sublinha a pesquisadora Violeta Loureiro.
Localmente, os problemas daqui podem inspirar outros pontos em busca de solução, trazendo isso à tona. Sem atualização do plano diretor há décadas, Belém inchou com fluxo migratório e o mundo viu que a sede da COP das Florestas está entre as capitais brasileiras com menor índice de arborização, segundo o IBGE, servindo de bandeja o calor e a falta de sombra para quem percorreu a cidade. Adaptação, uma das palavrinhas mais repetidas nesta COP e que está no dicionário obrigatório da cobertura climática, passa, entre outras ações, pelo uso de uma tecnologia simples: plantar árvores nas cidades. Eis outra pauta interessante em qualquer cidade do país.
Regionalmente, o jornalismo também deve apontar as feridas com contexto, para não cair no discurso simples de que é tudo preconceito e acabar exercendo a função de “passar pano” para governos de plantão locais.
A COP das Florestas também não conseguiu avançar ao ponto de incluir as florestas nos documentos finais. Existia a expectativa de ser criado um mapa do caminho rumo ao desmatamento zero global, ampliando a meta brasileira. Essa será mais uma tarefa para a presidência brasileira, que deverá contar com forte atuação da ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva. Desde que, claro, ela possa fazer isso.
O dever de casa brasileiro é audacioso, porém possível. Virar a curva do desmatamento, não só zerando, mas também restaurando áreas degradadas e gerando um saldo positivo.
É fundamental que o Brasil lidere pelo exemplo na área climática, uma vez que suas maiores emissões não vêm da queima de combustíveis fósseis, e sim da mudança do uso do solo (leia-se desmatamento) e da agropecuária, com altas emissões de gases de efeito estufa. E aqui, o Brasil tem outro ponto que deixa em dúvida até que ponto realmente quer liderar o afastamento dos combustíveis fósseis, já que algumas semanas antes da COP o Ibama autorizou as pesquisas para exploração de petróleo na Margem Equatorial, na área marítima da Foz do Amazonas.
Para o ano que vem, o jornalismo tem outra tarefa: fazer as pessoas - e os jornalistas - compreenderem que a COP não acaba quando termina. E, como reiterou Ana Toni, diretora executiva da COP30 por diversas vezes antes, durante e depois da edição de Belém: COP é um processo longo, com reuniões e encontros espalhados ao longo dos meses.
Ou seja, manter o tema e levar os debates dos plenários da ONU para a realidade das ruas e das comunidades é outro desafio, como disse Lula. Em 2026, manter a COP viva na cobertura cotidiana é outra tarefa que o jornalismo pode e deve puxar.
O desafio que vem das urnas
Em meio às siglas, termos técnicos e conceitos difíceis de explicar, o jornalismo reforça sua missão. A COP da Amazônia, a COP do Brasil, foi também a primeira a incluir oficialmente o desafio da integridade da informação climática. A ação climática - seja ela de mitigação (redução de emissões) ou de adaptação (como tornamos as cidades e comunidades mais resilientes à emergência climática) - só é efetiva e pode ser colocada na prática com vontade política. E a vontade política depende de outro fator: o humor das urnas, de quem decide em quem e por que votar.
O ano de 2026 não será apenas decisivo na corrida por decisões climáticas mais ambiciosas. Será, internamente, um ano de corrida eleitoral no Brasil. E que, pelo que observamos nos últimos anos e considerando o cenário internacional, será ainda mais acirrada, polarizada e fragmentada.
Pautar o tema vai exigir equilíbrio entre o pessimismo exagerado, que alimenta o negacionismo, e o ufanismo, que veda a visão ou gera desconforto pela ingenuidade. Em 2026, ao produzir jornalismo climático, vamos precisar ir além das informações básicas do lead.
Lembro de uma pergunta da Natália Viana, da Agência Pública, durante um dos painéis do congresso da Abraji em 2025 que ela fez a mediação. Era outro contexto, mas a pergunta cabe aqui e em outros momentos: “Você considera o seu conteúdo polarizante?”. Talvez essa seja uma boa pergunta ao definirmos pautas e abordagens de qualquer tema, mas especialmente o climático.
No mundo atual, essa é uma pergunta crucial para que o jornalista exerça sua função. Não existe certo ou errado e escolhas podem ser feitas. Mas ter consciência da decisão é honesto e construtivo. No ano que se avizinha, o jornalismo tem que questionar a lógica do algoritmo, furar bolhas, produzir conteúdo com contexto, baseado em ciência e nas pessoas, especialmente aquelas mais expostas e vulneráveis, ajudando a traduzir o conceito de justiça climática na prática.
Esse é um caminho entre os muitos possíveis. O fato é que o tema da urgência climática estará em pauta com mais força, devido à imposição da realidade por meio de eventos extremos, como enchentes, secas e ondas de calor. Um tema tensionado pelas questões e simpatias – ou antipatias – políticas.
Para o jornalismo, a COP deixou pronta uma série de pautas a serem trabalhadas ao longo de 2026.
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Protagonismo amazônida nas narrativas produzidas sobre a região
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Ciência na base do jornalismo climático,
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Vozes de povos originários e tradicionais no centro do debate
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Metas e promessas que precisam ser resgatadas e cobradas
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Integridade da informação como premissa de um jornalismo que se pretende sério, responsável e em busca de novas audiências.
Essas são algumas rotas possíveis de um outro mapa do caminho que precisa ser construído com urgência entre jornalistas e o público: a retomada da confiança, da credibilidade e da audiência. Entre as estratégias, deixar de disputar com criadores de conteúdo e avaliar quando e como pode ser possível a construção conjunta de narrativas, com o objetivo de informar, engajar e aquecer debates urgentes.
Num cenário em que a Inteligência Artificial tem sido tão utilizada pelos jornalistas, mas também derruba ainda mais a audiência, que em 2026 possamos nos servir de outras duas IAs para produção dos nossos conteúdos: a Inteligência Amazônica e a Inteligência Ancestral.
Este texto faz parte da série “O Jornalismo no Brasil em 2026” e foi publicado originalmente na plataforma Farol Jornalismo. A opinião dos autores não necessariamente representa a opinião da Abraji, do Farol Jornalismo ou do Amazônia Vox.
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