Por Daniel Nardin, diretor do Amazônia Vox. Foto de Kamran Guliyev (UN Climate Change)
Uma das palavras que podem resumir o que vai ocorrer em Belém nos próximos dias é multilateralismo. Concordo, não é das mais bonitas. Mas seu significado carrega um simbolismo que faz todo sentido. A palavra tem origem na geometria e aponta o óbvio: muitos lados.
Aplicado à política internacional, a teoria é simples de entender. Mas, na prática, é um desafio constante: muitos países com visões e objetivos diferentes trabalham em conjunto por um objetivo comum. É o princípio básico de funcionamento da ONU (Organização das Nações Unidas) e, por tabela, o que rege também tudo que gira - ou deveria girar - ao redor de uma Conferência do Clima, como a COP30 que Belém recebe.
Para bom brasileiro, multilateralismo soa e lembra outro termo mais nosso: mutirão. O termo, de origem indígena, foi escolhido pela presidência brasileira da COP30 para "convidar o mundo a construir, juntos, um grande mutirão global pela ação climática".
Logo ali, segunda-feira (10), começa a COP30 em Belém. Seja qual for o cargo ou a função, a quantidade de COPs ou eventos desse tipo, vai ter muita novidade para todo mundo. E muito trabalho.
Entre nós mesmos, jornalistas, notamos muitas vezes um certo nível de ansiedade e angústia de fazermos o nosso melhor. A quantidade de trabalho, o volume de demandas, o imenso mundo de pautas e sugestões já está nos deixando atordoados.
O whatsapp, ao tempo que facilita, pode atrapalhar. O tempo acaba ficando curto, mas eterno. Parece não ter hora para mandar ou receber mensagem. Tudo é para agora, ontem, para já.
Ao contrário dos smartphones, somos humanos. Mesmo eles precisam recarregar ou ficam cheios de armazenamento e pifam, usem a inteligência artificial ou não.
Nesse momento, o tal do coleguismo deve prevalecer. Ajudar e ser ajudado, orientar e repassar dica e sugestão. Mas, também, lembrar que uma informação que temos à disposição por nossa conta, com o mínimo de esforço, pode evitar a ativação do gatilho no outro que, acionado, se sente na obrigação de responder, ajudar.
Muitas vezes basta sair da tela e olhar para os lados ou buscar, afinal, as fontes primárias. Ok, tudo bem. Como disse uma grande amiga: está todo mundo no ritmo pancadão. Entender isso é fundamental para compreender que o outro também está, como você, com multitarefas.
Respira. Agora, é aproveitar esse momento para gerar conexão e ter a consciência de que a visão inventada da Amazônia, tão bem descrita por Neide Gondim, pode ter um novo capítulo. Aos que chegam, sejam bem-vindos. Dialogue, ouça como quem quer de fato ouvir. Assim, as trocas tendem a ser boas.
Teremos pela frente algumas semanas bem intensas. Pessoalmente, acredito que vale a pena desarmar, mesmo com algumas lembranças e feridas. E, ter como princípio outra máxima: tratar o outro como gostaria de ser tratado, evitando o estereótipo, pré-conceitos e homogeneização. Tenho dito que aposto numa ampla maioria de boa-fé e vontade genuína de acertar. Partindo daí, calibramos se for preciso, sim.
Talvez nem dê tempo, com Cúpula do Clima já agora e emendando com a COP. Se der - e tente forçar que dê - respire fundo. Renove a energia. E vamos em frente. Que o conceito do multilateralismo e do mutirão também nos inspire, jornalistas e comunicadores, no trato com todos que vamos esbarrar. E, olha... serão muitos.
De cá, só um desabafo. Que a gente compreenda que assim pode ser mais leve, sem deixar de cumprir a função de informar com seriedade e integridade o tema da nossa geração. As mudanças climáticas e o esforço que precisa ser feito pelos países deve ser focado em aumentar a ambição e agir. Teremos os diplomatas, uma intensa e linda movimentação da sociedade civil, do conhecimento científico, do tradicional, dos povos originários, do setor produtivo. Um retrato do mundo bem aqui, em Belém.
Talvez essa não seja a COP das COPs, nem a melhor ou maior. Convenhamos: essa competição boba atende apenas algumas vaidades. COP é processo, avanço, progresso. Esta também não será a última. Mas, que tenha avanços reais.
Aos colegas jornalistas, profissionais e todos que vão estar trabalhando de alguma forma, deixo o mesmo aceno e cumprimento que recebi de um voluntário ontem, ao descer do ônibus: uma boa COP para você. Para todos nós.
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