Pssica e o silêncio imposto aos paraenses

2025-09-10 18:00:00

Por Priscilla Santos, advogada e consultora, diretora executiva da CLIMÁTICA e co-fundadora da Rede Amazônidas pelo Clima (RAC)
Foto capa: Divulgação Netflix

A minissérie Pssica, de Quico e Fernando Meirelles, baseada na obra de Edyr Augusto, chega à Netflix com a promessa de mergulhar no Pará profundo. No entanto, para quem é paraense, a experiência de assistir é dolorosa – e não pela dureza da trama, mas pelo velho e recorrente apagamento das nossas vozes.

O paralelo com Cidade de Deus é inevitável. Assim como no filme que projetou Fernando Meirelles para o mundo, Pssica tem um apuro estético indiscutível: fotografia impactante, ritmo ágil, violência crua. Mas enquanto Cidade de Deus fez do sotaque carioca um elemento autêntico e indissociável da narrativa, Pssica opta por algo que beira a caricatura. O sotaque paraense é mal imitado, quase paródico, e a presença de atores locais é reduzida a papéis mudos ou irrelevantes.

O caso é literal: os poucos personagens paraenses mal falam. O gigante do teatro paraense, Paulo Fonseca, tem seu “auge” em uma única cena. Outros atores jovens sequer pronunciam uma frase. É como se a Amazônia fosse pano de fundo, cenário exótico, e seus habitantes, meros figurantes. Não consigo, como paraense e como fã que fui de Meirelles, “engolir” essa escolha artística.

Infelizmente, Pssica padece do mesmo mal que acompanha a Amazônia na pauta climática: todos querem falar sobre a Amazônia, mas poucos querem que os próprios amazônidas falem por si. O resultado é uma violência simbólica – mais uma – contra nossa identidade.

E aqui cabe lembrar: no Pará também fazemos cinema. Temos diretores, atores, roteiristas e produtores. Apenas para citar alguns: Priscilla Brasil, Jorane Castro, Roger Elarrat, Fernando Segtowick. Acabamos de conquistar Kikitos no Festival de Gramado com o curta-metragem Boiuna, da diretora paraense Adriana de Faria, que levou três prêmios, melhor direção, atriz e fotografia, com uma produção formada por “fazedores de cinema” paraenses. Também tivemos o filme Manas (2024), da diretora Marianna Brennand – que, a propósito, não é paraense, mas teve a sensibilidade (ou dignidade) de reconhecer paraenses em papéis de destaque – conquistando prêmios tanto no Festival de Veneza quanto no Festival de Cannes.

Não é necessário ser paraense para contar uma história sobre o Pará. Mas é necessário ouvir com atenção. Em vez de pedir que alguém imite nosso sotaque, por que não usar a nossa própria voz? Representar um território exige respeito, e isso começa por deixar que as pessoas que o habitam falem por si.

Meirelles declarou em entrevista que “o Pará está na moda” e atribuiu isso ao sucesso de sua minissérie. O Pará não está na moda – e nem estará – enquanto não formos protagonistas das histórias que falam sobre nós.

Aliás, recomendo assistirem ao documentário Não Haverá Mais História Sem Nós (2024), de Priscilla Brasil, premiado internacionalmente, que aborda justamente como a nossa identidade é construída a partir do olhar externo: romantizado, distorcido, preconceituoso.

A pergunta que fica é: quando esse vício de nos silenciar terá fim? Até quando teremos que aceitar que a narrativa sobre nós será contada sem nós?

Isso não é apenas um erro estético. É uma escolha política. É sobre poder, representação e respeito. E, enquanto isso não mudar, qualquer obra sobre o Pará, por mais bem produzida que seja, continuará sendo apenas mais um registro da nossa história contada pela boca dos outros.


Sobre a autora

Priscilla Santos é advogada e consultora sênior em políticas e finanças climáticas, com quase duas décadas de experiência na promoção de agendas de clima, florestas e justiça socioambiental nos âmbitos local, nacional e internacional.

É diretora-executiva da CLIMÁTICA e Líder de Políticas Climáticas e Florestais na Indufor North America, onde assessora governos, sociedade civil e setor privado em financiamento climático, governança florestal e estratégias de transição justa.

Co-fundadora da Rede Amazônidas pelo Clima (RAC), Priscilla possui mestrado em Política Ambiental pela Universidade de Oxford.

 

Fique por dentro das novidades do Amazônia Vox:

Gostou do Conteúdo? Compartilhe nas suas redes sociais:

Receba os conteúdos do Amazônia Vox no nosso canal do WhatsApp: