Artigo de Opinião
Por Ponciana Freire de Aguiar e Juliana de Sá Guerreiro
Fotos: Revista Ciência e Vozes da Amazônia/UFPA
A crise ambiental e climática no planeta tem se agravado dadas as constantes violações dos direitos ambientais e a falta de respeito às legislações que protegem o meio ambiente e as florestas, as águas, os solos, o clima e as populações que vivem nos territórios.
O presente texto é uma síntese do capítulo “Crise ambiental e climática global e a importância da Amazônia na regulação do clima para o planeta”, do livro “Meio ambiente em detecção e diálogo para o desenvolvimento sustentável agora em 2024”, das autoras. Resultado de estudos apresentados no “III Seminário de Meio Ambiente em Detecção e Diálogo” do GPGGPA/NAEA/UFPA, no intuito da conscientização para os efeitos das mudanças climáticas e importância da Floresta Amazônica no equilíbrio do clima.
As Mudanças Climáticas que eram previstas para 2100 já estão afetando o planeta. Na Amazônia a redução das águas do Rio Amazonas e muitos dos seus afluentes têm sido causadas pela Ebulição Climática, segundo Paulo Artaxo (2023), com ondas de calor, e em regiões com eventos extremos de tempestades, ondas de frio, e o aumento da quantidade de furacões e enchentes, que vêm ocorrendo em maior quantidade e frequência a cada ano.
Diversos desastres ambientais vêm ocorrendo no mundo por conta das mudanças climáticas derivadas de impactos ambientais gerados por atividade humanas que afetam a atmosfera, com o aumento dos gases de efeito estufa GEE’s, aumento do buraco da camada de ozônio, refletidas pelo aumento dos desmatamentos de florestas e do uso de combustíveis fósseis, além da poluição gerada por indústrias, automóveis e equipamentos, inclusive na Região Amazônica. Podendo também ocorrer por processos naturais como erupções vulcânicas.
Na Amazônia Legal as Grandes Obras têm causado pressão pelo agronegócio, construções de estradas, portos, barragens, perfuração de poços para petróleo e gás, especulação de terras, e garimpos e madeireiras, legais e ilegais, desequilibrando o clima. A Belo Monte Hidroelétrica e a Belo Sun Mineradora com suas licenças ambientais de operação causaram aumento do desmatamento com incêndios florestais e com grande devastação na Região do Rio Xingu/PA.
As Imagens de satélites disponibilizadas por órgãos como o CPTEC e a NASA, ex. satélite GOES, por meio do uso de geotecnologias, permitem observar a variação sazonal do clima na Amazônia e no mundo, detecção de aridez e umidade na análise da cobertura de nuvens, monitoramento da Temperatura Superficial do Mar (TSM). Imagens do satélite Landsat do INPE e do Sentinel pela Copernicus permitem mapear o desmatamento, através da cartografia e o sensoriamento remoto em Sistema de Informação Geográficas (SIG), permitindo boa análise da correlação com os dados históricos de clima e suas mudanças.
Na análise de imagens GOES do CPTEC, a TSM do evento El Nino em setembro de 2023, no Oceano Pacífico e na região norte do Oceano Atlântico causou o aumento das temperaturas, a seca e as ondas de calor na Amazônia Legal em 2023, resultado do aumento na TSM de até 3º C, e da temperatura global de até 2º C, provocando o avanço de tempestades, ciclones, furacões, enchentes, ondas de calor e frio, e mortes.
Autores como Lyon et. al (2021) geraram cenários em SIG’s prevendo que as temperaturas médias globais continuam a aumentar para além de 2100, neste cenário percebeu-se que a vegetação e as melhores áreas de cultivo moverão-se em direção aos pólos, e as áreas de culturas ficarão reduzidas, áreas de riqueza cultural e ecossistêmica (Ex: Bacia Amazônica) poderão tornar-se áridas com stress térmico, podendo atingir níveis fatais para a humanidade em regiões tropicais altamente povoadas e tornar-se inabitáveis, e o nível mar continuará a subir devido ao aquecimento dos oceanos.
Cenários para a Amazônia, para o ano 2500, centrando-se nas projeções para uma Terra Indígena com a perda da vegetação na paisagem, se tomará árida com redução drástica do nível de água, onde haverá atividade humana mínima e infraestruturas esparsas ou degradadas. Em outra de suas previsões, muitas áreas do Sul Global, mesmo com um futuro de tecnologias de adaptação ao calor, como agricultura robótica e edifícios verdes, a presença humana será mínima pela necessidade de equipamentos de proteção contra a radiação.

O autor Paulo Artaxo (2023) têm uma preocupação de previsão ainda pior, em que, hoje as Mudanças Climáticas já superam cenários previstos para 2100, com temperaturas podem alcançar 4 ºC, e devido à atual existência de fortes ondas de calor e frio, enchentes e furacões.
Na Amazônia Legal, até 2023, os estados mais desmatados são o Pará, Mato Grosso, Maranhão, Rondônia e Tocantins, e às margens do Rio Amazonas nos estados do Amazonas e do Acre PRODES. Assim, até o ano de 2023 os valores das taxas de desmatamento acumulado na Amazônia Legal foram de 490.870 Km², tendo em 2004 um valor de 27.772 km², tendo reduzido até 2012 para 4.571 km², com oscilações aumentando e diminuindo até 2017, subindo de novo, passando de 7.536 km² em 2018 para 13.038 km² em 2021, mantendo valores elevados até 2022, e decaindo até 2023 com 8.716km² de desmatamento.
Com isso, a Amazônia vem so- frendo com temperaturas maiores que 40º C e baixos volumes de pre- cipitação, os menores em setembro de 2023, com graves impactos na re- dução dos níveis das águas dos Rios Negro, Solimões e Amazonas e mui- tos de seus afluentes.
Foi registrado um sinal de alerta para precipitação em Estações Meteorológicas em Belém (PA) que se registrou 32,7mm em setembro de 2023 (sendo a média 120,1 mm), em Manaus (AM) registrou-se apenas 44,1 mm (sendo a média 79,0 mm), valores baixos que vêm ocorrendo com mais frequência dentre os menores valores totais para setembro (entre 1961-2023). Nos últimos 20 anos têm ocorrido maiores quantidades de ‘Seca’ e de ‘Onda de Calor’ (INMET, 2023).
Os cenários da NASA de aumento das temperaturas no planeta também são alarmantes, seus mapas históricos demonstram uma progressão nas mudanças das temperaturas da superfície global de 1884 até 2022, em que nos últimos anos de 2020 a 2022 ocorreu um aumento mais elevado, muito maior que a cerca de 40 anos ou a um século e meio atrás. Assim, é possível deduzir-se que a elevação dessas temperaturas na atual ebulição climática global, aumentou esses eventos extremos, coincidindo com os períodos de aumento dos desmatamentos no mundo, sendo a área da Floresta Amazônica a de maior desmatamento.
O desflorestamento na Amazônia ocorre também em áreas protegidas como Unidades de Conservação, Reservas e Parques, Terras Indígenas e Terras Quilombolas, sendo um crime grave, pois estas, são protegidas por lei e contribuem na proteção das florestas.
Segundo PRODES até 2023 muitas TI’s tiveram grandes áreas invadidas e desmatadas como a Apyterewa (PA) com taxas de 476,47 km² no Pará, Cachoeira Seca com 425,90 km², Ituna/Itatá (PA) com 240,85 km², dentre outras, com invasões por grileiros, fazendeiros, madeireiros, posseiros e garimpeiros, também ocorrendo em Mato Grosso e Rondônia.
Além disso, a aprovação do Marco Temporal Lei nº 14.701 em 2023, “a Lei do Genocídio Indígena”, traz trechos como a permissão “ à insta- lação de equipamentos militares e a expansão de malha viária nas áreas indígenas”, “exploração de recursos naturais sem consulta aos povos ori- ginários ou ao órgão indigenista”, o que agravam os conflitos, e amea- çam os povos abrindo caminho aos invasores e ao desmatamento (OBSERVATÓRIO DO CLIMA, 2024).
A SEMAS tem feito avanços no Cadastro Ambiental Rural, principalmente em Paragominas/PA. No entanto, o CAR pode e deve contribuir com a fiscalização, onde a retirada dos invasores e a punição são fundamentais, em cada Imóvel Rural cadastrado em TI’s e TQ’s, pois existem muitas áreas que foram cadastradas dentro destas, como ocorre na TI’s Ituna-Itatá com mais de 90% de sua área cadastrada no CAR, uma completa ilegalidade.
Ao tratar do hidroclima e da análise da rugosidade da superfície da Floresta Amazônica por satélites, Chambers e Artaxo (2017) observaram que a área de árvores de alturas variadas gera convecção profunda que lança altas parcelas de ar na atmosfera e a formação de nuvens que provocam precipitação, sendo a grande importância da manutenção da Floresta Amazônica, e outras, e da sua recuperação, com o reflorestamento para aumentar as reservas de carbono.
O comprometimento do Bra- sil com o Acordo de Paris exige a eliminação do desmatamento da Amazônia, Chambers e Artaxo (2017), pois esta, favorece a produção dos rios voadores, que são “cursos de água atmosféricos” que favorecem a precipitação (ARTAXO, 2023), o ciclo da água e do carbono com cerca de 120 giga/ton enviados a atmosfera, correspondendo ao carbono de 10 anos de toda a queima de combustíveis fósseis do planeta, importante na diminuição das emissões de gases de compostos orgânicos voláteis no mundo.
Este Acordo foi um tratado aprovado por 195 países da UNFCCC para o desenvolvimento sustentável, com meta de reduzir as emissões de GEE’s para o aumento da temperatura média do planeta não chegar a 2°C acima dos níveis pré-industriais, limitado ao máximo a 1,5°C.
O compromisso Internacional do Brasil de ‘Zerar’ o Desmatamento reduzindo 37% até 2025, e 43% até 2030, aumento da bioenergia sustentável em 18% até 2030, reflorestar 12 milhões ha, e alcançar 45% de uso de energias renováveis até 20303, deve ser retomado.
Assim, o uso das geotecnologias devem se voltar para um desenvolvimento sustentável alinhado com a preservação dos recursos naturais e o respeito às formas tradicionais de existência dos povos e à biodiversidade da vida, para o fim das taxas de desflorestamento na Amazônia e no mundo, e dos impactos da mineração, e da poluição dos combustíveis fósseis.
Referências adicionais:
AGUIAR, P. F. de (org.); GUERREIRO, J. de Sá. Crise ambiental e climática global e a importância da Amazônia na regulação do clima para o planeta. In: Meio ambiente em detecção e diálogo para o desenvolvimento sustentável agora. 1 (livro impresso). Belém: Ed. dos Autores, 2024.
Assista:
Vídeo III Seminário Meio Ambiente em Detecção e Diálogo GPGGPA/ NAEA/ UFPA. Disponível: https://www.youtube.com/watch?v=ntopk0fKo8Q&t=2s.
Este artigo é fruto da parceria entre o Amazônia Vox e a revista "Ciência e Vozes da Amazônia na COP 30", da UFPA https://amazonianacop.ufpa.br/publicacao/ . A publicação reúne pesquisas sobre a Amazônia, destacando conhecimentos científicos e sociais produzidos na região, com o objetivo de ampliar sua visibilidade e circulação. Os textos abordam temas relacionados à Amazônia e às mudanças climáticas.
Quem são as pesquisadoras?
Ponciana Freire de Aguiar
Professora da Universidade Federal do Pará (UFPA). Doutora (2011) e mestre (2006) em Geologia e Geoquímica pela UFPA, com graduação em Geografia pela UECE (2002). Ministra a disciplina Geoprocessamento como instrumento para a Gestão Pública. Atua nas áreas de Geociências e Meio Ambiente, com ênfase em Geotecnologias, Geografia Física, Análise e Gestão Ambiental, Sensoriamento Remoto, Morfologia e Dinâmica Costeira. Seus principais temas de pesquisa incluem degradação ambiental, geomorfologia e uso de geoprocessamento aplicado à saúde, geografia e geologia ambiental.
Juliana de Sá Guerreiro
Oceanógrafa pela UFPA (2006), com mestrado em Geologia e Geoquímica (2010) e doutorado em Ciências Ambientais (2021), também pela UFPA. Integra o Grupo de Estudos Marinhos e Costeiros (GEMC) e atua como pesquisadora de pós-doutorado no projeto “Subsídios para a Execução de Obras de Restauração Costeira e Desenvolvimento Turístico Sustentável em Salinópolis (PA)”, financiado pela FAPESPA. Tem experiência em geomorfologia costeira e submarina, morfodinâmica praial, processos meteoceanográficos, dinâmica climática, sensoriamento remoto e gestão costeira.
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