“Made in Acre”: brincadeira de carnaval para rebater preconceito inspira marca de roupas a partir de Rio Branco

Cansadas das perguntas e comentários cheios de clichê - e preconceito - amigas criaram uma grife que valoriza e divulga a identidade acreana para o Brasil


Texto de Maria Fernanda Arival, com revisão e edição de Luciene Kaxinawá e Daniel Nardin. Fotos e vídeo de Marcos Rocha

Publicado em 19/12/2025 15:00

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Sempre que viajavam para fora de Rio Branco ou mesmo encontrando conhecidos que iam até a capital do Acre, as amigas Rayssa Alves e Juliana Pejon ouviam os mesmos comentários - disfarçados de piada, mas carregados de preconceito - sobre seu lugar, sua gente e território. No carnaval de 2019, decidiram transformar o que incomodava em incômodo, no mesmo tom de “brincadeira”, no típico clima de carnaval. 

Pelas ruas históricas de Olinda, em Pernambuco, é comum ver grupos vestidos com mesma roupa, uniforme, fantasia ou dizeres em camisetas durante as festividades. Junto com outras amigas, foram de camiseta básica, com os dizeres “Made in Acre” na frente e “Ainda duvida que ele existe?” nas costas da peça. Não era apenas uma resposta, mas uma provocação e, ao invés de esconder seu lugar de origem, decidiram estancar os comentários ao expor ainda mais.

“A gente inventou essa brincadeira, do bloco Made in Acre, para realmente dizer que ele existe e aí você acaba com a pergunta ou comentário, mostra que tem orgulho sim de onde vem”, afirma Juliana. Indiretamente, a pergunta provocativa ainda aponta e critica a ignorância e o preconceito, algo que não tem lugar em momento algum, ainda mais no carnaval. Com as postagens nas redes sociais, vieram os comentários positivos de outros amigos acreanos espalhados pelo Brasil e mundo, que também tinham e ainda tem de ficar respondendo o óbvio. Ali, veio a inspiração para agir: os dizeres da camiseta poderiam, afinal, virar uma marca.

De volta à capital acreana, Rayssa e Juliana decidiram estudar e levar a sério a ideia, para não ser apenas uma paixão de carnaval e sim um negócio para a vida. “É uma coisa muito forte do acreano, dizer que somos daqui quando vamos a outro estado. Com isso, a Rayssa desenhou mais algumas ideias e iniciamos uma coleção de blusas com frases e dialetos acreanos”, lembra Juliana.

Com a rápida venda das primeiras peças, a dupla passou a ver a marca com outros olhos: como diz a música, todo carnaval tem seu fim. Mas, ali, era só o começo de uma marca que reforça e valoriza uma identidade e orgulho. “A gente foi entendendo a necessidade, principalmente das pessoas que iriam viajar, e vimos espaço para outros produtos. Entendemos que a missão da Made in Acre era muito mais do que comercializar camisetas exaltando o Acre. É muito mais do que isso, mexe com nossa identidade, nossa cultura”, enfatiza Juliana.

Literalmente, uma nova vitrine para a cultura acreana

O negócio foi além das camisetas e agora a marca conta com bonés, chinelos, moletons, regatas, cadernos, bolsas de viagem, pochetes, garrafas e outros objetos. Além das peças desenvolvidas e pensadas pelas sócias, a Made in Acre também comercializa acessórios e alimentos de artesãos e comunidades de povos tradicionais e originários acreanos.

“No meio do caminho a gente foi entendendo que aqui era um portal para mostrar cada vez mais artesanato acreano. Nós temos muitas coisas aqui, como esculturas, marchetaria, acessórios indígenas. Tem trabalhos manuais, tem doces, farinha e outros alimentos”, ressalta Juliana.

As peças produzidas por fornecedores externos passam por uma curadoria conduzida com cuidado por Juliana e Rayssa, que considera os produtos, mas também a origem, as comunidades e como o trabalho é realizado, respeitando tradição e as comunidades. “No início fi muito pelo contato que já tínhamos com comunidades, nas aldeias. Nós sempre usamos muitos acessórios indígenas e pensamos que outras pessoas também gostariam de usar. Conforme fomos trazendo essas peças dos artesãos, outras pessoas passaram a entrar em contato com a gente para apresentar o trabalho. Esses produtos são de artesãos daqui do Acre, são acreanos que a gente faz questão de enaltecer e valorizar”.

Entre os parceiros, estão o povo Yawanawá, povo Puyanawá, além de nomes conhecidos do artesanato, design e moda local, como Kléder Bezerra, Vanusa Lima e Rodney Paiva.

O artesão Kleder Bezerra, proprietário da marca Eko Joias, tem na madeira uma de suas matérias de base na produção das peças. O profissional produz anéis, colares, braceletes, materiais decorativos, como colares de parede e de mesa, mas são os brincos a sua marca registrada. 

“Eu trabalho com sementes e madeira, que são provenientes de refugos de marcenarias, oficinas de madeira, ou até mesmo o que encontro na rua ou na beira do rio. Onde eu encontro uma madeira interessante, eu pego para usar na confecção das peças”, conta.

É na pequena oficina, no fundo do quintal de casa, que surgem as peças produzidas pelo artesão. Vivendo há mais de duas décadas dedicadas ao artesanato, Kleder produz biojoias aproveitando o conhecimento que adquiriu com outras atividades. “Eu sou escultor, entalhador em madeira e também trabalho com barro, mas foi só depois de um certo tempo, a partir de 2001, que comecei a canalizar tudo isso para as biojoias. Comecei fazendo esculturas em jarinas, depois misturei outros materiais e hoje trabalho com sementes, madeiras, pedras e metais”, destaca.

Baixaria, pé-rachado e dinossauro de estimação: estampas que provocam e representam identidade

Em cada estampa, as peças carregam um pouco do traço da cultura do Acre. Podem ser grafismos indígenas, expressões locais ou mesmo transformando o preconceito em ironia. Uma das camisetas mais vendidas é a Dino: mostra uma pessoa levando um dinossauro na coleira. É uma resposta bem humorada para clichês como a frase que acreano costuma ouvir, de que é um território “perdido” e se as pessoas no Estado “criam dinossauros”. 

Camisetas e outros produtos trazem desenhos inspirados em grafismo indígena, retratam a fauna e flora, locais, expressões ou pratos bem típicos, como o tradicional “baixaria”. Aliás, se Joelma escrever uma canção sobre ir a Rio Branco, iria citar o baixaria, tal como fez com o tacacá em Belém. É comum nas feiras e mesmo restaurantes, servido a qualquer hora do dia, embora mais comum no café da manhã reforçado, o “baixaria” tem sua base de cuscuz de milho (fubá) misturado com carne moída bem temperada, ovo frito com gema mole, e bastante cheiro-verde (cebolinha e coentro).

Outra expressão lembrada em peças e na loja - que inclusive foi recentemente ampliada - é a que menciona o acreano do pé-rachado, aquele que tem forte raiz no território. “Pegamos tudo que a gente vive, ouve e do que as pessoas trocam com a gente e nos inspiramos. Usamos a marca como uma forma informativa também”, explica Rayssa.

“As pessoas se reconhecem olhando para as peças. Elas veem uma gíria e se identificam. Quando a gente se conhece, sabe da onde veio, a gente sabe para onde a gente vai, essas são as nossas raízes. É uma forma que a Made in Acre acha de compartilhar com os acreanos a sua identidade”, afirma.

Mulheres no comando e parcerias que fortalecem identidade

Mais de 80% da equipe da Made in Acre é composta por mulheres, da criação ao marketing, da costura à gestão. “É uma marca que está ganhando espaço e o coração das pessoas, está sendo reconhecida por todo esse movimento e pela qualidade, e porque não duas mulheres à frente e vendo tudo acontecer? Esse fato traz muito o movimento de igualdade. Temos a mesma capacidade, mesmo com os malabarismos da vida. Acaba sendo uma inspiração para outras mulheres. É muito gratificante”, destaca Rayssa.

Além de promover o artesanato e o empreendedorismo feminino, a Made in Acre apoia causas sociais e ambientais. “Temos uma linha de produtos cuja parte das vendas é destinada à escola de resgate da língua indígena na aldeia Nova Esperança, do povo Yawanawá. Também apoiamos a ONG SOS Amazônia, com a linha Soul Amazônia, destinada a ações de reflorestamento e proteção ambiental”, conta Rayssa.

A força da marca ultrapassou fronteiras e chegou a celebridades como o dj Alok, o humorista Whindersson Nunes, a atriz Giovanna Antonelli, o chef Erick Jacquin e outros que já usaram peças da marca. Mas, o que mais orgulha as sócias é ver os acreanos usando as estampas com orgulho mundo afora.

Um exemplo é a jornalista Venusca Borghi, de 35 anos, moradora de Rio Preto (SP) desde a adolescência. Ela nasceu em Rio Branco, no Acre, mas usa a marca para reforçar sua identidade e origem, mesmo distante há anos. 

“A família da minha mãe é do Acre e a do meu pai é de Rio Preto. Eu sempre ouvia piadas e histórias sobre o estado por aqui, e em uma viagem ao Acre, eu conheci a loja quando procurava lembranças para presentear meus amigos de Rio Preto. Cheguei aqui em uma fase da adolescência que as pessoas tentam se enquadrar, então gerava um pouco de constrangimento, mas com a marca, eu visto a camisa, sim, e faço questão. Hoje eu falo com muito orgulho. Eu achei demais, sensacional a ideia. Eu comprei e sigo elas nas redes sociais até hoje”, destaca.

Ela completa: “Elas têm um conteúdo incrível no Instagram, com uma série de vídeos que contam a história do Acre, como o território foi conquistado e valorizam a cultura”, afirma.

É nesse ponto que a marca mostra força, por reforçar identidade e orgulho. “O Acre é muito rico, existe muita coisa para se falar. Eu acho que vale a pena ter esse 100% dedicado para as coisas que são nossas, porque é o único estado que lutou para ser brasileiro. E ele é muito brasileiro”, diz Juliana. “Acho que foi criado dessa vontade de mostrar que o Acre existe e merece essa atenção do Brasil e do mundo. Não só o Acre, mas o Norte e a Amazônia também”, comenta Juliana.

“Acredito que a gente merece essa valorização e quando eu digo ‘a gente’, eu falo dos acreanos, porque como acreana, eu digo que a gente merece uma marca e pessoas que representem a nossa história, que falem e vibrem pelo Acre. Somos um povo guerreiro, bravo e lutador. Essa foi a forma que a Made in Acre achou de enaltecer esse povo. Os acreanos merecem esse reconhecimento e se empoderar, cada vez mais, da sua história e das suas raízes”, reforça Rayssa.

 

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